sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Funesto
Trabalhador sério e comprometido, fazia relativo sucesso profissional e familiar. Não era um homem rico mas tinha uma vida confortável e podia se dar alguns luxos.
Pai amável e bom marido, nunca se queixou de sua vida.
Uma noite porém o telefone tocou. Eram quase 3 horas da madrugada...
Fatos estranhos tiveram início após essa noite...Como eu disse, Antônio era uma pessoa como outra qualquer em tudo? ...Em tudo não, quase tudo...
"..alô - a voz de sono da Marieta acordou Antônio, que não tinha escutado o trilintar do telefone.
- O Antônio, por favor.
- Ton, é pra vc...(mas a essa hora?) disse ela abafando o aparelho.
- Alô...Hã, sim, sei...está bem, estou indo...Disse Antônio, devolvendo o telefone para sua esposa e sentando-se na cama.
- Mas você vai aonde a essa hora homem de Deus? Quem era ?
Mas Antônio não chegou a responder direito, apenas balbuciou algumas palavras e caminhou para o banheiro.
Atônita, Marieta levantou-se e ficou de prontidão na porta. Quando Antônio saiu ela o segurou pelo braço.
- Não vou deixar você sair assim. Onde já se viu, sair no meio da noite sem mais nem menos.
Antônio sorriu para a esposa e indicou a cama. Ela sentou-se aguardando alguma explicação mas, para sua surpresa, observou seu companheiro sair do quarto e fechar a porta atrás de si. Quando chegou na sala só teve tempo de observar pela janela o vulto de Antônio passando ao largo.
A noite era agradável, apesar de ser mês de agosto não fazia frio. Não havia nuvens no céu e por entre os edifícios, postes e árvores era possível observar a lua, quase Nova fazendo um pequeno semi-círculo bem fino no negro azul da madrugada.
Carros eram poucos, mas ainda existiam. Algumas pessoas caminhavam soturnamente pelas calçadas. Bêbados, ladrões e vagabundos se esquivavam pelas sombras. Cachorros viravam latas a procura da refeição diária, alguns tinham que dividí-las com os mendigos e habitantes da noite. O centro da grande metrópole a noite era assim, sombrio. Bastante diferente da agitação e algazarra do dia e muito distante do charme dos bairros e jardins mais abastados. Postes de luz amarela lembravam que aquele local era como um velório quase vazio. O que antes era vida e movimento, agora era silêncio e solidão.
Antônio apagou os faróis do carro e lentamente foi estacionando junto a calçada. Pelo vidro lateral pode observar a luz acesa da janela na sobreloja. Nenhum movimento lá dentro porém. Cuidadosamente, fechou e travou a porta. Lendo um pequeno papel olhou mais uma vez para a janela e se certificou de que era esse mesmo o local.
Não precisou tocar a campanhia nem bater a porta, pois essa encontrava-se semi enconstada.
Uma longa e inclinada escada de alvenaria pairava a frente de Antônio. Na parte de cima um vulto cresceu e junto a escada permaneceu. Após um instante de observação, um sinal com a mão indicava que Antônio deveria subir.
Sem pressa ele subiu. Sua expressão não demonstrava medo nem hesitação, mas uma serenidade incompatível com a situação.
A sobreloja era um ambiente grande e dividido em quatro cômodos. No primeiro havia dois sofás de couro preto e uma mesa triangular no centro. Embaixo da janela um aparador servia de descanso a um velho aparelho telefônico. Do lado oposto, um corredor levava aos demais. No final haveria um lavatório e bem no centro do corredor duas portas se opunham. Do lado direito havia uma cozinha com uma geladeira e uma pia ao lado. Na parede embaixo do vão que dava para o miolo do prédio, ficava uma mesa de fórmica.
Antônio parou em frente a porta da cozinha, costas para esta e olhou para o maior ambiente do lugar.
Era uma sala grande com piso em assoalho encerado. Cadeiras estavam encostadas na parede e um grande balcão estava estacionado do lado oposto da porta. Alguns quadros com retratos humanos estavam pendurados na parede, sobre o balcão. Do lado esquerdo um pequeno vitrô era o único contato com o mundo externo.
No centro da grande sala havia um sofá branco e um preto, cada um em uma extremidade de uma mesa com maciços pés de madeira e um pesado tampo de granito preto. Tão pesado era a pedra que não parecia ser esforço algum sustentar a caixa de cedro envernizada. Jazia sobre a mesa um corpo, zelosamente arrumado dentro do caixão. Na cabeceira, apenas um ramo de oliveira e nos pés um pequeno castiçal erguia uma vela ainda apagada e intacta.
Antônio viu o sinal do anfitrião para que se aproximasse.
Em passos firmes e largos, se dirigiu a mesa....
...continua...
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Retorno
Posso usar uma dezena de argumentos:
Falta de tempo, assunto, esquecimento...e por ai vai.
Mas a verdade é que tenho valorizado pouco esse espaço aqui...
Escrever exige pensar (para não dizer muita besteira) e pensar dá trabalho...
É provável que ninguém leia esse espaço e portanto, eu poderia escrever o que quiser aqui...
Acontece que não é bem assim...Mesmo com um público reduzido, é preciso consideração...
Vou tentar retomar essa atividade que é tão prazerosa e que me faz tão bem....
Para dar esse segundo "pontapé", quero escrever sobre minha filhota Luiza.
Nossa, como cresceu, como deixou de ser um bebê para se tornar uma criança linda, espontânea, esperta como nunca vi...
Já manifesta desde cedo suas vontades. Com aquele olhar esperto e sincero, é capaz de me dizer muito mais do que os ditos "cultos" jamais diriam...
Filhos são a prova mais inequívoca de que existe Alguém superior...Um Deus perfeito.
O olhar, o carinho das mãos pequeninas, a sutileza da descoberta de um mundo novo...Tudo é maravilhoso quando se tem um pequenino ao lado.
Como é gostoso ouvir as primeira palavras...Ensinar os primeiros joguinhos...Sentar no chão e brincar como se fôssemos crianças novamente...Nossa, é muito bom...
Transformar uma criança em um Ser Humano de verdade é o projeto mais intenso e que exige a maior dedicação possível, mas nem por isso é estafante ou penoso...É difícil apenas...
Não conheço sensação mais intensa do que a de sentar e ter ao seu colo uma filha te olhando, levando um pedacinho de pão à sua boca, te pedindo para experimentar...
É uma extensão de seu ser, de sua vida que ali está materializada...
Um abraço, um beijo, uma gargalhada...é o maior presente que se pode ter nessa vida...
Sim, nos trazem preocupações, medos, ansiedade, angústia até... Mas porque somos imaturos...
Quem disse que somos nós quem escolhemos ter filhos? Será que não são eles que nos escolhem como pais? Quem disse que temos o poder de decidir algo?
Temos "apenas" o Dever de educá-los da melhor maneira possível. Passando-lhes valores coerentes, sinceros e humanos. Indicando o caminho da retidão e alertando-os sobre o errado.
A escolha será deles, sempre, mas essa escolha se dará baseada naquilo que ensinamos, que apresentamos a eles como correto.
Eles vão errar muitas vezes, mas precisam sentir que têm o porto seguro da família para curarem as feridas, perderem o medo de levantar e seguir adiante novamente.
Sou completamente apaixonado por minha pequena Luiza. Amo-a de maneira incondicional, mesmo sabendo que a maior parte do dia ela não se lembra de mim, eu a amo como se ela fosse a única coisa existente nesse mundo...
Esse amor se renova e agora começa a se preparar para o milagre da multiplicação...daqui alguns meses a Clarinha estará chegando e então...ai ai ai...serei o ser mais cheio de amor que essa Terra já abrigou...
Uma belíssima semana a todos...
Para não perder o costume, vamos brindar com um Chianti e ouvir um Coltrane...Hoje, sem títulos ou rótulos...
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Pra frente...sempre
Algumas, ao contrário, tem enorme disposição e força para baterem a poeira assentada pelo tombo e simplesmente olhar adiante, mirar um novo objetivo e seguir atrás de alcançá-lo.
Conheço algumas pessoas dos dois tipos, e não cabe aqui nenhum julgamento de princípios ou valores, até porque é complicado julgar atitudes quando se trata de foro íntimo. O que me impressiona é a diferente forma de enfrentar situações semelhantes por pessoas com as mesmas possibilidades de reação.
No documentário "An Inconvenient Truth" com o ex vice presidente norte americano Al Gore, ele abre uma palestra dizendo: "I'm Al Gore. I used to be the next president of United States of America..." (algo como, "Eu costumava ser o próximo presidente americano") e arranca aplausos da platéia.
Se tem alguém, na história dos últimos 10 anos, que foi enganado, ou, pra ser mais polido, que foi levado a sair de cena, injustamente, foi o ex candidato à presidência dos Estados Unidos. Não quero comentar o episódio, até porque já faz muito tempo e na eleição posterior, o atual presidente validou sua legitimidade com o voto popular, corretamente dessa vez. O que quero dizer é que, ao invés de ficar lamuriando a perda (ilegítima) do cargo de maior poder no mundo, e talvez a trajetória pretendida por uma vida toda, Al Gore resolveu mudar e seguir adiante. Não o conheço ou sequer conheço seu trabalho a fundo, porém sei do seu novo trajeto na política. Trajeto esse que provavelmente inviabiliza definitivamente qualquer pretensão de nova candidatura.
Com um filme enxuto e sem exagerar na pieguice ou dramaticidade, nos mostra que somos todos responsáveis pelas desastrosas ocorrências em nosso planeta. Degelo, aumento de temperatura nos oceanos, fenômenos "naturais" violentos cada dia mais rotineiros e etc.
Foi adiante, abraçou uma causa e está ai, lutando por ela.
É esse o exemplo de se erguer após um tombo. Não necessáriamente é necessário ficar lutando ingloriamente contra o mesmo adversário todo o tempo. Muitas vezes temos que aprender com o erro e a derrota anterior e na nova batalha ou desafio, usar a experiência. Isso não significa ficar lutando todo o tempo contra as mesmas coisas, mas sim, não deixar de lutar, seja pelo que for.
Poderia citar aqui diversos outros exemplos mas não quero trazer isso para o círculo pessoal e correr o risco de ofender alguém. Basta apenas dizer que entre meus amigos fiéis e meus parentes mais próximos, tenho exemplos de superações de incrível resistência. São todos meus heróis e Nortes, aos quais procuro olhar e me guiar sempre que alcanço a lucidez desejada.
Não posso porém, deixar de citar a Li nesse espaço. Muito antes de sermos um casal, eu já a admirava e respeitava sua força e seu vigor no trato com o dia-a-dia. Trabalho, estudo, amigos, problemas e soluções, sempre foram por ela tratados com uma simplicidade e uma força incríveis. A admiro por muitas coisas que no cotidiano eu posso, como favorecido que sou, absorver. Mas essa força de superar-se, de aprender e de perdoar, de observar e corrigir o rumo que ela tem me impressiona a cada dia. É uma pessoa especial e me sinto especial por estar tão próximo dela, especialmente nesses momentos em que temos vivido coisas tão únicas.
Olhar pra frente...essa é a chave.
Não podemos ficar carregando o fardo do passado. Aprendamos com nossos erros, mas não podemos nos auto-martirizar e abdicar da vida. Temos que ter a clareza que pessoas como a Li e o citado ex presidente têm, de olhar adiante sem ter a preocupação ou "desculpa" de carregar um fardo pesado demais.
Para momentos de reflexão como esse, abro um vinho que sempre me faz refletir. Um Pinto Noir. Misterioso e frágil, sem deixar de ser forte e simples...um caso a parte no mundo dos vinhos.
E pra tocar, coloco "Blue Monk" com Hank Jones e sua trupe. Ele no piano, Cannobal Adderley no sax, Wes Montgomery na guitarra, Milt Jackson no vibra, Tony Willians na bateria e Ron Carter (o professor) no contra-baixo...Muito bom.
terça-feira, 24 de abril de 2007
O Nosso
Coisas do dia-a-dia, da correria da cidade grande e da nova paternidade (muito mais pelo lado psicológico que pelo lado prático).
Ontem, tomando café com um amigo e estávamos falando na importância do "nosso" na vida cotidiana.
Temos, muitas vezes, a estranha mania de desvalorizarmos o que é "nosso" ou então de valorizarmos mais o dos "outros" - diz-se que a grama do vizinho é sempre mais vistosa.
Acredito que essa é uma época difícil em que os povos a cada dia mais, estão em busca apenas do material e com isso passam a valorizar mais o que "outros" têm e não o que eles mesmos.
O "nosso" deverá sempre ser o melhor. Guardadas as proporções e razões de auto-crítica, onde podemos melhorar nossa conduta, devemos valorizar os nossos amigos, entes queridos, valores, princípios, história e estórias, criação e educação, infância etc. Não podemos simplesmente desprezar essas coisas, tão valiosas que são nas nossas vidas. Não podemos nos esquecer das conversas simples, sérias ou descontraídas com nossos pais. Os primeiros namorinhos, a primeira briga, a primeira e a última nota baixa na escola. Tão pouco devemos esquecer os conselhos de amigos que abrem mão de seu próprio tempo para sentar e nos ouvir e só então nos dizerem algo para nosso bem, mesmo que muitas vezes não queiramos ouvir nada, apenas dizer e dizer. Mas, são palavras importantes as que nos dizem, pois são para nosso bem.
Como jogar fora aqueles momentos tão raros e simples com "nossos" avós? Não podemos abrir mão disso por simples capricho e desejo de consumir algo que o cidadão da frente têm e nós não.
Por que? Pra que? Nada é mais nosso do que os momentos, creio aliás ser a única coisa realmente nossa. Então, não devíamos simplesmente achar que o cara com o carrão bacana e o apartamento mais vistoso que o nosso tenha uma vida mais simples e feliz, tão pouco mais fácil que a nossa, até porque não é a NOSSA vida.
Infelizmente o "nosso" tem perdido espaço para os "meus", "seus" etc.
Ainda tenho esperança em ter uma vida onde "nossos" momentos, em união e companhia das pessoas do "nosso" querido convívio. Espero que "nossos" filhos possam entender que isso é importante um dia.
Mas, enquanto escrevo isso, provavelmente algum batalhão das forças armadas do Sr.da Guerra esteja invadindo algum bairro ou cidade de um país que julga ser "DELE" e matando pessoas. Ceifando, tirando-lhes aquilo que era só "deles" e não DELE. Ou então, em SEU território, algum estudante desequilibrado e infernizado com a esquizofrênica incoerência e contradição dos atos com as palavras daquele governo, mata algumas dezenas de colegas e se mata sem deixar explicação...mas não há explicação...infelizmente.
Não abro nenhum vinho hoje, tão pouco coloco música alguma, não tem clima.
Paternidade.
É uma grande emoção e um sentimento muito profundo e constante esse. Como todo mundo, sou um ser cheio de defeitos e algumas qualidades e ser pai tem sido uma experiência que acaba por exaltar as qualidades pois pretendemos sempre passar o melhor para nossos filhos.
Vem vindo ai uma nova vida, um novo ser, para o qual, assim como a Luiza, vou me esmerar em ser presente, em amar esse bebê e principalmente, fazer de tudo para que o projeto de transformá-lo em ser humano, de verdade, seja bem sucedido.
A alegria é imensa e a agitação é incrível. Mesmo parado, meditando ou refletindo, dá pra sentir uma nova vida entre nós. Posso sentir o pulsar dessa criança, antes mesmo de ter tocado-a.
A mamãe fresca tá que não se aguenta também e juntos temos curtido muito essa etapa.
Tenho um amigo que diz que "esses bichinhos já vêm com o pãozinho embaixo do braço", numa referência a preocupação que a maioria, se não todos, dos pais têm, que é alimentar suas crias.
Alimentar não só de pão, mas de amor, afago, carinho, segurança, responsabilidade, princípios fortes e dignos. A tarefa não é fácil mas é extremamente simples, bastando ter em mente que não somos donos das vidas de nossos filhos e que portanto eles vão ter que se dirigir nessa vida. Assim, acredito que cabe a mim apoiar, estruturar e fundamentar enquanto crianças para que quando adultos possam se guiar sozinhos, sempre sabendo que eu estarei aberto para ajudá-los.
Agradeço a Deus por ter essa oportunidade tão única que é a paternidade. Nós homens não nascemos preparados para sermos pais, ao contrário, somos filhos, maridos, tios etc. A paternidade é um aperfeiçoamento, uma benção que ganhamos e onde temos a chance de crescer espiritualmente e passamos a (re)valorizar princípios que tivemos quando crianças. Cada sorriso de minha filha me nutre de tal forma que percebo que meu principal projeto nessa vida é o de ser um pai honesto, justo e carinhoso com meus filhos. Empregos, dinheiro, bens, amigos, enfim, tudo o que planejamos, programamos e capitalizamos durante nossa vida é secundário, mas não sem importância, apenas é o segundo motivo. O primeiro será sempre esse amor incondicional que desenvolvemos por essas pequenas criaturas que sabem muito mais do que nós e que nos propiciam momentos que valem uma vida.
Os próximos 7 ou 8 meses serão de preparativos materiais e psicológicos para recebermos a mais nova obra prima da natureza.
Para esse momento, como em alguns outros de rara emoção, toco o Kind Of Blue todinho e abro um Brut para brindar a nova vida que em breve nos estará brindando com aquilo de mais belo que um bebê tem, a pureza e a completude da vida.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
JoJô
Eu, que a vi chegar em casa recém nascida.O cabelinho espetado, avermelhado. A vi chorar brava e forte, provavelmente com fome, faminta que era desde sempre. Faminta que sempre foi pela vida. Pelas coisas boas e simples dessa vida. Tinha fome de amigos, de convívio com os que amava. Fome de viver! E como viveu bem essa menina.
Uma rápida lembrança e a imagem que me vem em mente é o de sua casa cheia. Amigos e amigas felizes, cantando, brincando, jogando, se divertindo enfim.
A simplicidade era sua marca. Um convite inesperado para sair e ela em 2 minutos estava pronta. Não se importava com grandes marcas ou aparências fúteis. O importante era ir e estar perto de quem amava.
Me lembro de nossa última conversa naquela fatídica tarde de setembro. Ele me mostrara o tênis novo que havia comprado por 1/3 do preço e comentou que tinha comprado um rosa para a Ná. Dei risada da maneira simples e bacana que ela me contou aquilo. Havíamos passado parte da tarde juntos, ela aguardava a liberação do plano de saúde para poder fazer a intervenção. Era apenas uma pedra no rim. Um "peso" que ela carregava havia alguns anos. Dores e intervenções ultrasonográficas e outras do tipo não foram o suficiente para tirá-la do sério ou arrancar seu humor. Naquela tarde caminhamos abraçados por uma galeria velha no centro de São Paulo aguardando a tal liberação. Caminhamos devagar observando as vitrines antigas e conversando sobre seu namorado. "Ele não tem tempo quente..." me dizia ela apaixonada. "Faz cada rolo, que vc nem imagina..." contou-me com um brilho no olhar.
Lembro-me de beijar seu rosto e despedir-me dizendo que mais tarde, depois do trabalho eu passaria ali para ver como tinha ido e para levar um jantarzinho pra elas (minha mãe e minha tia a acompanhavam). Ela disse que estava bem, pegou seu travesseiro, deu risada de uma transeunte engraçada que passou a frente do carro, me deu um beijo e saiu. Eu nunca mais falaria com ela outra vez.
Aqueles dias foram os mais insólitos de minha vida. Jamais imaginei sofrer um impacto tão forte e triste como perdê-la. Não me parecia natural ou certo. Pessoas nascem e se vão, eu sei, mas não daquela maneira. Uma fatalidade.
Mas como estou falando de Jojô, não há que ter espaço para tristeza. Tenho que celebrar o tempo que tive a honra de conviver com essa figura tão ímpar e bela.
Foram 26 anos de irmandade. Era minha amiga, minha prima e irmã. Demos muitas risadas juntos, tocamos violão, cantamos, fomos pra praia, viajamos juntos e compartilhamos de momentos sempre inesquecíveis.
Hoje continua sendo seu aniversário. Não mais posso abraçá-la ou telefonar e dizer "feliz aniversário linda". Mas posso e vou continuar desejando-lhe felicidade e paz, esteja ela aonde estiver, e certamente ela está em melhor lugar. Acredito que sua presença permanecerá por aqui pra sempre. Pessoas como a Jô não desaparecem, mesmo que seu corpo físico teime em sumir. Mas posso sentí-la por perto, com aquele jeitinho simples, meigo, decidido e lindo de ser.
Parabéns Jô. Muita paz e felicidade pra vc minha linda, esteja aonde estiver, que Deus lhe abençõe.
Abrou uma garrafa de Antonin Guyon Pinot Noir 2004, para degustar relembrando os ótimos momentos vividos com minha querida Jô. Coloco pra tocar o Kind Of Blue inteiro. Miles Davis no trumpete, Bill Evans no piano, Coltrane no sax tenor, Ardeley no Sax alto, Chambers no baixo e Billy Cobhan na bateria
Educação
Ao descer ao saguão do hotel para fechar a conta, enquanto aguardava a fatura um senhor ao meu lado solicitou o fechamento da sua conta e antes que a atendente pudesse dizer algo ele desferiu uma dose de veneno reclamando que tinha pago antecipadamente sua diária. "Eu nunca vi isso na minha vida...", disse o "cidadão". "Sou da Federal e conheço muita gente na empresa X e na empresa Y, gente de alto cargo e com poder de decisão..." continuou.
A recepcionista, com muito tato e educação, informou-lhe que é uma norma da rede de hotel para hóspedes que não têm reservas.
O briguento preferiu ignorar e disse que ia ligar pra fulano e pedir que nunca mais se hospedasse ninguém naquele hotel (que, apenas para esclarecer, me pareceu honesto e correto, além de me hospedar com respeito e coerência ao valor de sua diária).
Assinei minha fatura e fui saindo. Fiquei pensando o que leva alguém em pleno domingo de sol, saindo de uma viagem, que me parecia da lazer pelos trajes, estabelecido na vida (pelo menos foi o que ele fez questão de afirmar) fazer escândalo na recepção de um hotel. Ele resmungou algo como "estão achando que eu não ia pagar??"... Bem, não sei sobre as normas do hotel e já me aconteceu em outros lugares de ter que pagar uma diária adiantada, mas o raciocínio é simples. Se eu vou pagar e sei disso, tanto faz se na entrada ou na saída. Se me cobram na entrada eu não tenho porque me sentir ofendido pois em nenhum momento pensei em não pagar, certo? Pois parece que tem gente que não pensa assim e o fato de pedirem um simples pagamento de algo que se deve passa a ser um insulto...
Insulto é o que esse cidadão fez e outros tantos fazem ao querer mostrar poder, influência etc. Coitados, não sabem nada e acham que realmente alguém se importa se conhecem o presidente da república ou o papa. Importaria que fossem corretos e, se sentirem que devem reclamar, reclamem mas sem ofender ninguém.
Assim seguimos...
Para amenizar um pouco, coloco Chet Baker para tocar. Ele no trumpete, Zoot Sims no tenos, Bud Shnak no alto, Russ Freeman no piano, Joe Mondragon no baixo e Shelly Manne na batera tocam "You don't know what love is". Para brindar àqueles que ainda acreditam nas boas maneiras, um chianti italiano, justo, fino, educado.
Boa semana a todos...
quinta-feira, 29 de março de 2007
Meu Tipo Inesquecível
Hoje é dia do "Meu tipo inesquecível..." Algumas pessoas leram meu blog (incrível, eu achei que só eu lia...) e me mandaram alguns mails (foram 3 na verdade) falando sobre a postagem de Meu tipo inesquecível. Gostaram da idéia e sugeriram que eu criasse um espaço periódico com esse sub-título. Gostei e resolvi que nas quintas-feiras irei tentar escreve sobre pessoas que me marcaram e que eu admiro muito. Assim, hoje é dia do "Meu tipo inesquecível..."
Não dá pra falar em alguém inesquecível apenas porque a pessoa já não está mais entre nós. Não quero transformar isso aqui em uma caixinha mortuária de saudosismo. Pretendo lembrar de pessoas que me são importantes independente do pulsar de suas veias atual.
Quando eu me mudei para São Paulo tudo aqui era estranho, monstruosamente estranho. O trânsito, as pessoas, a correria o medo da violência. Tudo assustava e me faziam questionar se valeria a pena investir meu tempo e minha vida para tentar a realização profissional aqui. Lutava sozinho, eu pensava e assim achando, fui criando "cascas" de proteção e gerando temores desnecessários. Tanto stress acabou fazendo meu coração disparar e me fazer pensar que ia morrer no meio da rua e ser jogado em um canto como um "sem nome". Foi ai que a figura de meus pais apareceu. Ligava pra casa pra dizer que estava tudo bem e eles conversavam alguns minutos comigo, sempre me animando e passando sobriedade. "São Paulo acaba se tornando pequeno filho, você vai ver. No fundo é o seu bairro, seus vizinhos, as praças, e você estará em casa..." dizia meu pai. "Quando seu avô era moço ele ia em tal lugar..." animava minha mãe. Sempre me tranquilizando e dizendo que tudo iria dar certo. Assim foi e é (graças a Deus!!!) meu pai e minha mãe. Simples, tranquilos, serenos. Meu pai apressado e pontual como poucos, é verdade. Afobado para fazer as coisas rapidinho, sabe-se se lá porque. Minha mãe perfeccionista e talentosa como ninguém. Os vestidos que faz para minha Luiza são um coisa...
Há quase dez anos eu tive um problema indefinido de saúde. Um dia, estava trabalhando e deixei de sentir o lado direito de meu corpo. Após uma batelada de exames, detectou-se um cisto na minha cabeça. Não souberam dizer ao certo o que seria o corpo estranho alojado na parte traseira do lado esquerdo de meu cérebro. Não sei dizer exatamente a sensação que tive ao saber daquilo mas o olhar calmo e sereno de meu pai ao ouvir do médico o seu parecer me tranquilizou. Ele apenas sorriu tranquilo e disse que tudo ia ficar bem e que era só fazer o que os médicos diziam. Após um chato tratamento a base de cortisona e outras coisas que não me lembro eu estava desanimado pois o quadro ainda não se revertera e ai apareceu meu pai de novo."Você não se preocupe, fica tranquilo que daqui a pouco você estará novo em folha...". E após essas palavras ele e minha mãe me disseram que tinham comprado uma passagem para Campo Grande. Eu deveria descansar um pouco e minha tia, médica e incrível personalidade, estava me esperando para umas "férias" com eles lá. Eu não tinha dinheiro nem pra pagar a faculdade direito e com os gastos extras em medicamentos não imaginava como seria possível viajar naquele momento. Pois fui. Consegui 15 dias de licensa, ganhei a passagem e lá fui eu. Após duas semanas, me sentia vivo novamente. O olhar e o carinho de meus pais me fizeram encarar aquilo apenas como uma dificuldade momentânea e que em breve estaria tudo bem. Minha mãe, bastante religiosa, diz ter feito calos nos joelhos em seus momentos de prece e hoje conta orgulhosa de que presenciou um milagre. O fato é que depois de 8 meses o tal cisto sumiu, desapareceu de meu cérebro, para espanto do neurologista que me atendia.
Foram momentos tensos esses também, mas eles estavam lá. Meus pais, com seu carinho, seu amor e sua sabedoria. São um exemplo a serem seguidos, como pessoas honestas e íntegras que são. Como seres humanos, falhos e verdadeiros e especialmente como pais que criaram 3 filhos e ainda lutam com problemas que eles nem precisavam mais se importar.
Quando meu pai perdeu o emprego (após 25 anos de bons serviços prestados) para nunca mais conseguir um serviço formal. Eles conseguiram manter a família unida e com muita força, passaram pelos momentos mais tristes na vida material quando pais que vêem seus bens e o pouco patrimônio que amealharam serem pilhados por pessoas em quem confiaram demais. Pois eles passaram por isso. Souberam humildecer e encontrar prazer nas coisas mais simples e desprezar a soberba de falsos amigos. Por tudo isso e muito mais que não escrevi ainda aqui, eles são os meus tipos inesquecíveis dessa semana.
Para eles, por eles, abro um Brunello de Montalcino dos talentosíssimos Frescobaldi e coloco para tocar Chick Corea no piano, John Patittuci no baixo, Wayne Shorter no sax e Freddie Hubbard no trumpete. Muito bom...
Risoto de Pêra com Gorgonzola
Duas xícaras de arroz arbório;
1 dente de alho;
1/2 cebola pequena ralada;
200gr de gorgonzola;
1 pera d'agua;
1/2 xícara de pinholi ou snoubar;
1 litro de caldo de legumes;
50gr de mateiga;
1 copo de vinho branco seco;
Modo de preparo:
Refogue o alho e a cebola em metade da manteiga. Adicione o arroz e após refogar por alguns minutos, adicione o vinho. Deixe que o álcool evapore e va adicionando o caldo de legumes com calma, sempre mexendo bem. Quando estiver quase pronto, adicione as peras cortadas em tiras e sem a pele. Mexa mais um pouco e adicione uma concha mais de caldo. Coloque por fim o gorgonzola e termine com o resto de caldo. Mexa até reduzir todo o caldo e no final adicione o resto da manteiga. Tampe a panela por alguns minutos e sirva.
Esse risoto me remete a uma noite muito especial pois foi o primeiro jantar que me meti a fazer para minha namorada LI_nda. Feito com muito carinho e atenção nos detalhes, acho que consegui superar meu primeiro teste diante daquela que foi se tornando a mulher da minha vida. Muito bom...Depois do jantar um violãozinho para embalar a noite...
Para acompanhar eu abro um Don Maximiniano, direto do Aconcágua para nosso deleite, uma especialidade...Coloco para tocar Stan Getz no tenor, Chet Baker no trumpete, Gerry Mulligan no barítono,Bob Whitlock no contrabaixo, Chico Hamilton na bateria, tocando um clássico da Bossa Nova, Corcovado..."um cantinho e um violão..."
sexta-feira, 23 de março de 2007
Meu Tipo Inesquecível
Tive a sorte de ter tido, durante um período curto é verdade, os 4 avós em convívio.
Meu avô materno era, esse sim, a figura doce que se pode imaginar quando se fala de um avô.
Por pouco mais de 10 anos eu fui brindado com sua convivência. Ah, como era prazeroso visitá-lo na longínqua Campo Grande.
Mas hoje vou falar de meu avô paterno.
Figura singular na familia, eu exagero e chego a dizer que na humanidade, por que não?
Personalidade exagerada, firme, forte. Culto como poucos, ou talvez o mais culto ser com quem já tenha conversado.
Imigrante italiano, seguiu aqui no Brasil o caminho contrário dos imigrantes. Não foi para a roça cultivar café e fazer fortuna, mas, em um mosteiro no Rio Grande aprendeu o português, aperfeiçoou o Latin o Francês, linguas que mais tarde foram se juntar a outras as quais ele dominava como se fosse nativo. Era um incrível poliglota de 8 idiomas, 9 talvez...
Sua cultura não era apenas na liguística. Professor graduado que se tornou, andou pelos caminhos da matemática para mais tarde ensinar quase meia Bauru as operações aritiméticas. Trilhou outros caminhos do saber. Formou-se filósofo (que coisa rara e estranha de se dizer...) e filosofou por algum tempo. Doutourou-se em outros temas.
Conheceu parte da história por ter vivido essa história. História de guerras mundiais, revoluções e evolução que ele acompanhou sempre com olhar atento. Formou e informou muita gente e virou nome de faculdade, ruas e avenidas no interior do Paraná e de São Paulo. Pouco, na minha opinião, mas muito se verificarmos o descaso com os heróis que esse país produz e não dissemina.
Professor Aníbal! Era assim que lhes chamavam. Não eu, para mim era o Vô Aniba.
Era uma figura contraditória para mim. Todo mundo dizia "temê-lo" por sua veemência e rigidez. Era severo com seus pupilos, mas eu nunca o vi assim. Era um "molecão" aos sessenta, setenta e quase aos oitenta. Doce e dócil comigo.
Brincalhão e enérgico sempre. Nunca deixou a peteca cair.
Aos 18 anos fui estudar em Bauru. Naquela época eu não sabia direito o que era estudar ou como estudar. Apenas passei nos vestibulares e no de Direito, em Bauru, eu resolvi seguir e ingressar na faculdade. Eu morava em um prédio antigo no centro velho da cidade. Era um apartamento espaçoso em cima de uma agência bancária e da janela da área de serviço eu podia avistar os fundos da construção ao lado, que na frente abrigava um bar antigo - Bar 1° de Agosto - e nos fundos "escondia" uma cancha de bocha. Era possível ouvir, por volta das 3 da tarde, os gritos dos senhores, geralmente descendentes de italianos, ao redor da cancha. Algumas vezes eu olhava pra baixo e la estava meu avô. Camisa xadrez, o cucuruto avermelhado aparecendo pelo ralo dos cabelos. Me arrependo de não ter descido tantas vezes o visse para poder tomar uma cerveja com ele e dar risada de suas piadas.
Alguns dias da semana eu ia almoçar em sua casa. Após a aula de manhã, eu pegava carona com algum amigo e me dirigia para as Nações Unidas 1441.
Após o almoço (sempre muito gostoso que minha avó preparava com carinho) me sentava com ele na sala de TV e assistia algum noticiário esperando ouvir dele algum comentário inteligente, que sempre vinha.
Meu avô gostava das coisas simples da vida. Nunca se preocupou em enriquecer sua conta bancária além do necessário para pagar as contas e o estudo de seus filhos. Seu bem estar era de fácil satisfação. Tinha sua casa, simples mas confortável, paga (a duras penas é verdade, e com ajuda de meu pai). O seu velho Corcel II 82 era sua preciosidade. Cuidava-o como se fosse realmente um animal de raça. A catarata lhe tomou uma das vistas, mas para alguém como ele, apenas uma das vistas era o suficiente para dirigir seu "carrão" pelas ruas e estradas.
Por volta das 5 da tarde ele me convidava para ir la tomar uma cerveja gelada. E eu ia, mas poderia ter ido mais vezes. Não fui por essas crueldades da vida que nos afasta das pessoas mais velhas quanto somos muito jovens para saber que eles são aquilo que passaremos a vida toda buscando ser.
Hoje quando penso em uma vida feliz, me vem a mente a vida de meu avô.
Consumiu muito mais livros do que modas passageiras. Sorveu mais a essência da vida nos seus meandros cotidianos, nas conversas nos bares honestos e padarias que não existem mais, do que na malícia diária e devoradora que nos aplaca todos os dias. Pôde realizar o sonho de um dia voltar ao seu país natal levando minha vó junto e por lá reencontrou irmãos, primos e tios, além das vilas, caminhos e estrelas que um dia ele deixou pra trás buscando sobreviver.
Suas conversas eram divertidas, sinceras, honestas e claras. Não tinha firulas e não fazia de sua alta cultura um objeto de empáfia. Ao contrário. Com ele aprendi a dar gorjeta nos postos de gasolina. A convidar os carteiros a beber um gole de de café e um copo d'água.
Aprendi que se pode dormir nas missas sem que isso seja pecado. Descobri que devemos ser dignos e que a honra está não na valentia, mas na manutenção de seus princípios.
Seu legado? Acredito ser o melhor e mais bonito que se possa ter. Muitas foram as vezes que ouvi alguns parentes (serpentes!) o criticarem por não ter se engajado na política ou na posição de reitor, sócio ou proprietário de faculdades. Não sabem eles que o seu amor, o seu tesão era ensinar, dar aulas, dentro e fora das classes. Nunca quis ser político porque não era sua índole enriquecer as custas dos outros. Não era sua obrigação deixar herança em dinheiro a ninguém. Deixou sim uma lembrança digna e uma história linda que um dia pretendo contar para meus filhos.
Hoje quando olho para meu pai brincando com minha filha ou minha sobrinha, de certa forma vejo ali o "espírito" do vô Aniba. Sério porém brincalhão. Fazendo piadinhas com as crianças e com os adultos, sem ser incoveniente.
Levando a sério a vida, mas sem deixar de achar graça nas coisas que são engraçadas.
A convivência com meu avô me foi a maior aula de humanidade, história, civilidade e educação que eu posso imaginar que alguém possa ter.
Me lembro que no dia de seu velório eu não consegui chegar muito próximo de seu corpo. Minhas lágrimas não me deixavam se aproximar daquele que fora meu herói e, heróis não morrem. Tenho certeza de que aquela foi apenas mais uma brincadeira, que ja dura mais de 10 anos e que hoje ele deve estar ensinando outras crianças e jovens por esse mundo afora.
Para esse momento de saudades, abro um vinho simples, mas honesto e produzido pelas origens de meu avô. Um Barbera D'Asti, perfeito. Coloco o Miles Davis tocando "Someday my Prince will come" com ele no trumpete, Ron Carter no Baixo, Evans no piano. Apenas os 3 dessa vez, para que o som seja mais puro.
21 de Março
O dia 21 é um dia como outro qualquer, certo?
Errado.
Para mim é um dia especial
21 de novembro é o aniversário da minha querida namorada. Ah como eu amo essa menina que teima em ser cada dia mais linda.
21 de junho nasceu minha filhota (a mais velha, já que as outras vêm depois). Um dia para não ser esquecido jamais.
21 de Março. Esse dia pode ter mudado minha vida pra sempre...
A um ano, no dia 21 de março eu me encontrei com alguém e com algo que eu jamais havia me deparado.
O voo estava no horário (eu havia conseguido antecipar para um duas horas mais cedo) e eu estava ansioso. Não me sinto confortável em aviões...
Assim que a máquina voadora pousou, aquela sensação de alívio que sempre me afaga quando ouço o "rilinchar" da borracha no asfalto, não me tomou por inteiro. "Estranho" pensei....
Desci do avião e não reparei muito nos detalhes do aeroporto. Para mim são todos iguais.
Percebi apenas uma decoração de temas infantis onde pequenos desenhos colados nas paredes e chão mostravam pinturas e frases temáticas. Interessante...
Havia uma atmosfera de frio naquele dia. Não que o clima estivesse propriamente frio, não estava. Mas o céu cinzento, a garoa fina e o frio na barriga me faziam sentir como se estivesse desembarcado em Londres...
O taxi me levou ao hotel. Fugindo do trânsito pesado de fim de tarde e agravado pela chuva.
Estava adiantado.
Ao chegar no hotel, a constatação do emocional. Estava com as mãos suadas, fato raro. O estômago frio e a cabeça a mil.
Corta para 1989....
Fazia 17 anos que eu havia descoberto o amor. Era apenas um adolescente tentando escapar dos 15 anos para enfim me tornar "adulto" aos dezesseis e o cupido me flechou. Um namoro rápido, 4 meses apenas. Nada muito íntimo, para os padrões atuais. Ela era linda. Uma beleza deslumbrante. Cabelos pretos contrastavam com sua pele branquinha que era tingida por pequenas e maravilhosas pintas, dando a ela um ar meio selvagem, meio natural. Não era alta, nem era baixa. Era perfeita. Tinha as mãos de pianista e os olhos de investigadora. Seu sorriso era capaz de baixar minha guarda de criança em corpo de homem. Sua maturidade me impressionava e eu estava completamente apaixonado. Ela era a menina mais bonita da cidade...
Foi um namoro rápido mas uma paixão duradoura. Mesmo após quase 5 anos que não mais a via, ainda sentia saudades e sonhava com ela. Um sonho que foi se perdendo pela incredulidade, pela descrença e pelo sentimento material de impossibilidade.
O tempo apagou aquela paixão...pelo menos foi o que eu pensei...
Corta para 2006.
Me peguei olhando no espelho (fato um tanto raro para mim pois não há muito o que olhar...) e percebi que não era mais aquele menino que um dia sentiu-se completamente perdido e invadido por sentimentos diversos, distintos e confusos por uma garota que desfazia de mim.
Uma ligação e poucas palavras trocadas selaram meu destino.
Dali duas horas eu a encontraria. Não a minha namoradinha de 17 anos atrás mas, uma mulher que eu não conhecia. Sim, já havíamos conversado por diversas horas em telefonemas, cartas eletrônicas e chats que me deixavam confusos e animado ao mesmo tempo.
Banho tomado, barba feita, roupa desamassada da viagem e o coração a milhão.
20:35 eu estava no bar do hotel tomando, pasmem, uma dose de burbon. Precisava descontrair. Era meu primeiro encontro com alguém que definitivamente não conhecia, embora já tivesse a encontrado inúmeras vezes no passado.
Ela adentrou no hotel flutuando. Não parecia pisar o chão. Sei que parece frase feita mas foi o que percebi naquele momento. Mesmo à distância pude perceber seu perfume, e o constatar quando nos abraçamos. Não sei como mas senti o perfume antes mesmo de chegar mais próximo dela.
Aquele sorriso quase me fez bater os joelhos. Sentia meu coração pulsando velozmente. Era uma sensação incrível e la estava eu, novamente diante daquele olhar, daquele sorriso, daquelas mãos...Sentir novamente seus beijos não era algo que eu, sinceramente, podia ter afirmado algum tempo antes. Ah, mas como foi bom....
Não sabia o que dizer ou o que fazer. Fazia 17 anos que não sentia aquilo e meu corpo todo pulsava por aquela mulher.
Um ano se passou daquela noite e ainda sinto meu peito bater quando a vejo sorrir ou quando seguro suas mãos. É a mulher da minha vida e nesse 21 de março faz um ano que me apaixono por essa menina linda.
Tanta coisa aconteceu nesse ano, coisas fortes, fortíssimas as vezes e permanecemos juntos, mesmo contra todas as expectativas, ou contra algumas pelo menos.
Eu amo essa "coisinha" linda e que me faz ser mais, sentir mais e amar mais e mais.
Um ano é muito pouco, mas é um símbolo de uma vida que está apenas começando. Uma vida a dois onde somos muito mais do que isso. Somos uma multiplicidade de coisas e sentimentos e emoções. Que venham os outros anos, todos os que tivermos direito.
Viva a vida!!!!
Nessa ocasião, abro um espumante brut para celebrar. Depois abro uma garrafa de um belíssimo Borgonha que irá nos acompanhar ouvindo John COltrane e sua trupe tocando summertime, já que nos despedimos do verão nessa data...Depois, ouvimos Autumn Leaves, para celebrar a nova estação....com muito amor e muita emoção...
quinta-feira, 22 de março de 2007
Seo Fonseca
Seo Fonseca era aposentado do Exército. – REFORMADO – gritava ele – REFORMADO!
Seus netos não entendiam como uma pessoa poderia ser reformada, embora existam muitas técnicas de lipo e plásticas, reformas não. Mas seo Fonseca era uma pessoa exigente e não admitia um erro desses, muitas vezes ele perdia a calma a tal ponto que ele só parava quando seu filho Batista lhe segurava ou quando sua dentadura escapava-lhe à boca.
O problema é que certa vez a dentadura caiu no colo da namorada do neto mais velho, e mordeu as partes pudentas da menina, foi um horror, seu Fonseca esbravejava, a menina gritava, o cachorro latia, não, não havia cachorro algum. Batista, o filho, tentava acalmar o pai, e o neto escondeu-se embaixo do sofá. Foi uma confusão, e até hoje no bairro quando se passa ao lado da menina se diz, “olha a menina que levou uma mordida do seu Fonseca”. Uma vergonha.
Seo Fonseca já passava dos oitenta mas aparentava somete uns sessenta. Ereto – as costas – sempre de barba feita e cabelo raspado, tinha uma familia comum que morava em um bairo comum de uma, bem, voces já sabem. O problema é que seo Fonseca era integrante de uma sociedade anonima, não uma S/A., uma sociedade secreta, daquelas de filme mesmo. A sociedade era formada inicialmente por 15 integrantes mas, hoje só sobreviviam seis. Seo fonseca era o mais moço e por isso, lhe davam as missões mais pesadas como carregar o candelabro com as velas acesas.
As reuniões da SSBP – Sociedade Secreta do Bairro Perroca – ocorriam todas as quartas-feira no porão da casa do Gen. Olegário, sempre à luz de velas.
O porão era simples, pois um dos lemas da SSBP era “não à ostentação!”. Possuia uma mesa octagonal e vários candelabros para as velas. Nas parede havia a cabeça de um ornitorrinco empalhada (siímbolo da sociedade).
A SSBP tinha como objetivo salvar o mundo dos invasores espaciais que ameaçavam invadir a terra a qualquer momento.
Cada reunião começava com um ritual simples e rápido onde bebiam seiva de mariposas e cantavam o hino do Juventus. Após esse prefácio, tinha início a reunião.
Entretanto, naquela noite uma grande tempestade pairava sobre o Perroca. Estrondos de trovões e flashes de raios e relâmpagos invadiam o ambiente. Quando o ancião ia iniciar a reunião, um raio entrou pelo encanamento da pia e acertou diretamente a peruca do Major Suzano e ricocheteou nas medalhas do Tenente-Coronel Juvenal. Ainda soubrou algumas fagulhas para o Capitão Sinval que por pouco não engoliu sua ponte.
O pandemônio estava instaurado. Os Ssbpianos ficaram apavorados e corriam em volta da mesa fugindo do raio que não encontrava saída para ir embora. As pupilas do Juvenal brilhavam cada vez que ele piscava. A peruca do Suzano ficou encandecente e indecente. O G. olegário gritava a todo pulmão que era o fim e abraçava-se ao Coronel Lindolfo que tentava disfarçar uma certa satisfação com o afago.
E o raio a chicotear e desmoralizar os nobres militares até que do nada sumiu. Todos ficaram atônitos e até o Seo Fonseca, que nunca se abalava, começou a soluçar lá em cima do lustre onde estava pendurado. Aos poucos foram se acalmando e voltando ao normal, o Gen. Olegário relutou mas concordou em soltar o Cel. Lindolfo que fazia um afago na careca do colega. Derrepente, um tremor e o porão explodiu. Voou patentes por todo o bairo mas misteriosa e milagrosamente Seo Fonseca não morreu. No dia do enterro (colocaram as medalhas nos feretros) todos olhavam espantados para o velho Fonseca. Ele ainda mantinha a postura ereta, mas, nunca mais foi o mesmo.
Para as coisas que insitem em permanecer, abro um "Chateauneuf du Pape" que insiste em permanecer bom, seja qual for sua safra...Coloco uns "jovens" cubanos a tocar seu som contagiante e absolutamente lindo...Compay Segundo e sua voz rouca nos encanta com seu "Amor de loca Juventud" e em seu tresero (espécie de violão criado por ele mesmo), Ruben Gonzales mostra o seu fascinante piano, Eliades Ochoa segura com vitalidade o violão cubano, Omara Portuondo tem uma voz incrível, Barbarito Torres nos apresenta seu alaúde cubano é algo a ser ouvido sempre...
quinta-feira, 15 de março de 2007
Vida Simples...
As contradições e incoerências estão ai, para quem quiser ver e ouvir.
refiro-me a condição humana. Aos valores e princípios de respeito ao próximo ao nosso corpo e a nosso espírito.
Não sou uma pessoa religiosa ou seguidora de alguma crença mas acredito que necessitamos fazer o bem, ajudar e respeitar a todos se quisermos ter algo nessa vida e em qualquer outra que possa haver.
As inversões de valores que notamos todos os dias estão, dia após dia, superando-se. Hoje em dia o que importa é sucesso financeiro. Trocar de carro e sempre por outro mais luxuoso e maior é um sinal de que o sujeito está "bem".
Ter um apartamento mais bacana é quase que um emblema de que você é capaz, inteligente, profissional...Não há mais quase ninguém que deseje saber se você está em paz, com saúde e vivendo em harmonia com a familia a amigos. O que se ouve sempre é a pergunta: "Fulano está bem?" E esse "bem" é sempre no tocante ao aspecto material, como se isso fosse a única coisa que realmente importa.
Concordo que no sistema e mundo em que vivemos hoje é importante saber viver com dinheiro e com coisas materiais, mas creio que os limites já foram derrubados.
Um profissional não pode, contemporaneamente, desejar uma carreira pacata e horizontal. Ele precisa ser ganancioso e ambicioso o suficiente para competir, lutar, brigar e até matar (nem sempre metaforicamente) para poder subir de estagiário para analista, depois coordenador, gerente e assim por diante. O que se prega é um mundo de altos diretores, como se o profissional "padrão" fosse uma doença, um mal ao qual deve-se vacinar todos os meses.
Em todos os setores percebemos essas inversões. Ler os jornais ou assistir aos noticiários da tv é estar diante da paranóia, da imundice humana. Neto matando avô, criança de menos de dois anos sendo violentada e morta em uma igreja numa cidade pequena no interior do país, criança em idade primária sendo arrastada como se fora um "bang-bang" latino, namorados se matando após se drogarem, familias destruídas...esse é o nosso retrato? Parece que tem sido.
Hoje no café da manhã com minha namorada (aliás, devo aqui agradecer a Li por ter me ajudado a perceber o quão importante é um café da manhã com a mulher amada...) ela me contou sobre um executivo que resolveu ter uma vida mais simples. Vendeu o palacete e comprou uma casa "comum", vendeu 3 carros e ficou somente com um. Ao invés de 4 guarda-roupas abarrotados, resolveu que cada integrante de sua familia deveria ter apenas as roupas necessárias para se viver sem exageros. Não sei os meandros da história mas não me interessa. Seja por que for, é um exemplo a ser admirado e, por que não, seguido.
Será que precisamos de tanto luxo e de tanta ganância nessa vida? Precisamos de tanta grana assim pra viver? Não nos basta termos dinheiro suficiente para pagar nossas contas, alguns gastos ocasionais e termos mais saúde e tempo para compartilhar com quem amamos e que nos amam também?
Há cerca de um ano minha noção de qualidade de vida era uma. Confesso que tenho mudado minha maneira de pensar. Humildade não é defeito, pelo contrário. Não é burrice ser pacato. Errado é esse modelo que ai está, truculento, violento e desumano. Sei lá...acho que a humanidade em alguma esquina do tempo, tomou o caminho errado...
Para colocar um pouco de paz, toco um tema delicioso que poderia nos levar até a Lua, sem dúvida...Joe Henderson "rege" Fly Me to The Moon em seu tenor forte e suave, no contrabaixo Dave Holland coloca seu sotaque britânico, Art Blakey vigora na batera e TMonk nos leva as estrelas com seu piano voador...
Abro, simplesmente e sem pretensão, um delicioso Malbec Luigi Bosca importado de nossos "hermanos" e feito com muita simplicidade e honestidade.
Viva as coisas simples da vida...
sexta-feira, 9 de março de 2007
Dábliú Buchi
Entendam o seguinte. Há alguns anos, a outra grande república, a Russia, era governada por um digno cidadão, pai de família, avô de familia, boa praça, torcedor fanático do Dínamo. Mas como ninguém é perfeito, ele tomava umas vodkas no fim do dia. O problema é que com o avançar da idade, o dia para ele tinha apenas 20 minutos.
Todo mundo sabe, que a guerra fria de fato, de fato mesmo, ali no certo, sempre esteve meio morna. Mas os governantes contemporâneos souberam manter uma disciplina que evitava a destruição do planeta em 7 segundos.
O problema teria ocorrido (ninguém confirma oficialmente, mas uma fonte minha do pentágono me diz ser verdade verdadeira) quando o presidente que aqui está agora, o visitou alguns anos atrás. A confusão estava armada.
Imaginem uma visita cordial do Tio Sam à Europa, onde passaria o final de semana em uma bela estância nevada ao norte de Moscou, a convite do presidente russo.
Até aí, nada demais. O final de semana começaria em bom astral. As pistas de esqui estavam ótimas, o clima bom, o céu em um azul de brigadeiro. Tudo perfeito.
O Tio Sam levou junto consigo seus três netos além da força secreta disfarçada de renas soviéticas.
Do lado da Russia, além do presidente foram uma neta e dois sobrinhos netos representar a juventude do leste europeu. Tudo muito tranquilo. Passam o dia esquiando, falando banalidades. As crianças fazem bonecos de neve e brincam de atirar chumbinho em algumas renas que insistiam permanecer por perto. Muito chocolate quente, muito milho e batata cozidos.
No sábado, a discórdia começa a aparecer. O tempo virou e uma grande tempestade de neve assola o acampamento. Não é possível sequer tirar o pé da cabana. Sem ter o que fazer, e tendo em vista que as primeiras damas não foram e que as bailarinas do balet Putirkov não aceitaram o convite em virtude do cachê, os chefe de Estado começaram a beber.
Tentando esconder o vício um do outro, o anfitrião começa.
- Bem camarada, vamos tomar um conhaque para aquecer esses velhos ossos?!
- Sim, claro, um copinho nunca fez mal a ninguém. ( seus olhos brilham!)
Os dois brindam a paz mundial.
- Strotzen prosit!
- Cheers!
Em um único gole esvaziam seu copos.
- Acho que mais uma dose vai bem, certo.
- Ë claro que eu to a fim!
Outra dose é derramada nos copos, desta vez mais generosa.
- Ao fim da guerra
- Yes!
Masi uma vez o copo se esvai de uma só tomada
- Mandei trazer esse aguardente direto de Cognac. Esses franceses são meio esquentadinhos mas sabem fazer uma boa birita, digo bebida.
- Tem razão. Aliás, eu aceito mais um pouco
O russo levanta-se de sua cadeira e meio cambaleante pensa : “esse americano vai acabar com meu estoque”. Enchidos os copos até a boca, os donos do mundo elevam seus vasos transbordantes e mais uma vez brindam. Mas desta vez é o representante americano que toma a iniciativa.
- Que se dane a paz. A nós dois, os verdadeiros próceres mundias. (pelo menos de minha parte)
- Strubleizz!
- Hã
- Harmarzz!
- Ok. Ok.( o que esse boçal está dizendo)
Neste momento uma das crianças americanas olha e diz:
- Hii, o vovô está chamberlein
A menina russa responde:
- Quem o seu avô está imitando eu não sei, mas o meu está de fogo.
Passadas algumas horas e cinco garrafas de conhaque, os líderes nacionais estão sentados cada um em uma poltrona e de dedo em riste, desafiando a autoridade do outro.
- Vocês americanos pensam que são os donos do mundo! Inventaram a tal da globalização e agora não tem mais controle sobre ela.
- Nós temos o controle sobre tudo e sobre todos! Ops! Quero dizer, simbolicamente.
- O seu país não vale nada, não tem nem comida direito. Da última vez que lá estive comi hamburguer, onde já se viu uma nação onde não há um prato típico.
- A é!
- É
- Pois o seu país tem muitos pratos típicos, mas ninguém tem dinheiro para fazê-lo e muito menos comprá-lo.
- Culpa dessa porcaria que vocês inventaram de nome capitalismo.
- Nós não inventamos nada!
- Isso é verdade, voces não têm capacidade. Aceita outro copo?!
- Sim, por favor.
- ...
- Voces não sabem nem beber direito, é só cerveja, e quente!
- E vocês só tomam vodka barata nacional, e esse conhaque não veio de Cognac coisíssima nenhuma, no maxímo, foi comprado em alguma esquina de Kiev, e bem barato ainda.
- Agora você me ofendeu.
- Se quiser vir pode vir, mas vem mesmo!
As crianças assistem tudo em silêncio. Derrepente, o garoto americano mais velho com cara de bonzinho e sardas no rosto, puxa o cabelo da menina decendente de Stalin. Os do meio tacam sujeira de nariz um no outro. Os mais novos abrem a boca e começam a chorar estridentemente. O caos esta armado. O ambiente está pesadíssimo. As crianças choram compulsivamente. Os dois senhores já estão para se pegar, e só não o fizeram ainda porque estão incapacitados de levantar das poltronas onde afundam-se cada vez mais.
- Está vendo só que você fez! Americano de uma figa, agora as crianças estão chorando e brigando assustadas.
- Eu fiz!? Você está mesmo caduco. Eu só estava tomando essa porcaria aqui quando você começou a me injuriar.
As crianças choram cada vez mais e os velhos estão se atacando com pedaços do estofamento das poltronoas já que ninguem teve coragem de atirar os copos.
- Onde estão as mães desses pestinhas que não aparece?
- Não disse que está caduco! Eles vieram sozinhos.
- Essa liberdade. Bem se sabe que isso é coisa de americanos. Na mãe Russia não existe isso.
A situação cada vez pior vai tornando-se insustentável e o lider yank ameaça sacar de seu celular verde e mandar o pentágono atacar o leste europeu inteiro. Ao que reage o chefe vermelho.
- Faça isso e eu ordeno o kremlin ativar os mísseis nucleares e acabo com aquele seu país metido a besta.
- Aaaah! Então aquela história de desarmamento era só lorota. Eu devia ter desconfiado.
- Só não desconfiou porque é um otário. E bêbado.
- Eu não sou bêbado.
- Alguém por favor quer mandar matar essas renas idiotas que estão batendo na janela com um walk-tlak na mão.
Ao dizer isto caiu em sono profundo, não se sabe se por causa da bebida ou pela visão de uma rena falando em um rádio transmissor. Logo em seguida o outro também desmaiou. As crianças continuam chorando.
quarta-feira, 7 de março de 2007
Lula alho e óleo de entrada, risoto de camarão como principal e...vela....
Ingredientes:
Lula alho e óleo.
1kg de lula em anéis
2 dentes de alho picado miudinho
2 dentes de alho em finas fatias
salsinha picada na hora
sal
pimenta do reino
3 colheres de azeite de oliva
estragão
1 cálice de vinho branco.
Risoto de camarão.
800g de camarão miúdo limpo
600g de arroz arbóreo
1 cebola ralada
2 dentes de alho picados
500ml de caldo de peixe
sal
pimenta vermelha limpa
pimenta do reino
cheiro verde
açafrão
1 taça de vinho branco
Modo de preparo
Para as Lulas:
Temperar os anéis com o alho picado, sal, pimenta, o estragão miudinho, o vinho e duas colheres de azeite. Deixe descansar por cerca de 1 hora.
Aqueça o restante do azeite em uma frigideira de fundo grosso e coloque o alho fatiado, quando começar a dourar, junte a lula e reserve o molho que sobrou do tempero. Vá dourando os anéis até que a água liberada pela lula evapore. Adicione o molho restante aos poucos para ir concentrando, quando acabar, deixe secar e está pronto. Salpique a salsinha sobre os anéis e sirva.
Risoto:
Doure o alho e a cebola no azeite em uma panela grande, adicione os camarões e abafe. Quando secar, adicione 3 colheres de azeite, o açafrão, a pimenta vermelha picada sem a pele e as sementes, a pimenta do reino e o cheiro verde e misture tudo para em seguida adicionar o arroz. Deixe dourar por dois minutos e coloque o vinho branco. Vá mexendo até que evapore. Quando o vinho tiver evaporado, adicione duas conchas do caldo de peixe, vá mexendo e adicionando o caldo até que os grãos do arroz não estejam mais "esbranquiçados". O arroz não pode ficar completamente cozido, devendo permanecer "al dente" mas não cru.
Desligue o fogo e coloque uma colher de manteiga, mexe uma vez mais e tampe a panela por alguns minutos antes de servir.
Servi essas duas receitas no final de semana passado quando recebemos, a Li e eu, um amigo místico e mítico. Profundo conhecedor dos mistérios estelares e da astrologia, passamos horas muito agradáveis comendo os anéis de lula com um espumante e depois saboreando o risoto com um bom tinto, ambos eu indicarei logo mais abaixo.
A noite estava ótima e a conversa pra lá de animada. Alto astral e boa companhia, combinação perfeita. Grandes temas, em baixo volume, tocavam ao fundo embalando a noite.
Após a segunda garafa de vinho, sentamos na sacada para apreciar melhor a bela noite de sexta, para poder melhor ver o céu, apagamos as luzes e acendemos uma vela decorativa com aroma de cravo e canela.
Conversamos sobre tudo. Astros, eclipse, amigos, tempo, presente, passado e futuro...estávamos na terceira garrafa de vinho quando percebemos que a chama da vela estava alta demais para um simples pavio. Apagamos a chama e enfim nos demos conta de que a parafina cor de vinho havia derretido e escorrido sobre a mureta da sacada, pelo lado de fora. Após muitas risadas, percebemos que teríamos que limpar a mureta no outro dia, pois naquele momento seria arriscado demais.
No outro dia quando fomos ver o "estrago", com olhos de sono e cara de vinho, notamos que a parafina se derramou nas três sacadas abaixo e não somente na nossa. Um vexame, pensou a Li. Um barato, pensou o amigo...Eu, eu não pensei em muita coisa pois ainda estava pensando no jantar da noite anterior...divertido...
Para acompanhar a lula, um pro-seco da Salton, justo. Para o risoto a idéia era abrir um Cabernet Sauvignon Australiano, e assim foi, porém um Malbec argentino e um Sirah Chileno seguiram o irmão do novo mundo e nos acariciaram com aromas, sabores e leveza poucas vezes vistas juntas...muito bom....
Na "vitrola" estava o bom e velho Coltrane entoando seus clássicos no sax soprano, Ron Carter apareceu para dar uma força no baixo, Bill Evans energizou os teclados de seu piano e Paul Motian mandou muito bem na batera..."sonsacional"
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Ano novo e botecos...
Há quem acredite que o ano no Brasil só comece realmente após o carnaval, ou seja, na quarta-feira de cinzas....Eu não. Eu acho que começa mesmo na segunda-feira após o carnaval.
Tudo me parece diferente agora. O trânsito voltou a piorar, as pessoas parecem menos anestesiadas, as sujeiras de Brasilia começam a "pipocar" na imprensa enfim, a engrenagem inicia seu longo e demorado ciclo.
Como eu já havia iniciado meu ano há cerca de dois meses, aproveitei o carnaval para refletir, descansar e tomar algumas atitudes necessárias. Uma delas foi viver mais intensamente mas de maneira leve.
para "começar" o ano novo...
Hoje acordei pensando naquele boteco da esquina. Todo brasileiro que se preze tem um boteco na esquina. Alguns são mais botecos que os outros, mas ainda são botecos. Há botecos em que há apenas um balcão. Outros além do balcão tem prateleiras, são prateleiras cheias de latas de sardinha e vidros com azeitonas e salsichas no vinagre, além é claro das garrafas de cachaça. Existem botecos que são chiques, com espelhos, banquinhos e pasmem, mesas e cadeiras para que os ocupantes sentem, embora muita gente não considere esse tipo de estabelecimento como um verdadeiro boteco. Entretanto, o que chama mais a atenção é aquele senhor que fica atrás do balcão. Esse senhor recebe várias denominações como tio, chapa, aí, meu velho, e outras mais ou menos distintas, mas nós vamos chamar de seo Manuel. Seo Manuel está sempre com a mão esquerda segurando o queixo, um guardanapo, que um dia foi branco, sobre o ombro direito e tem como companhia uma mosca que insiste em pousar sobre seu nariz – sempre limpo pelo dedo mindinho – e o cachorro, esse passa o dia todo dormindo, mas que, basta cair um amendoim no chão para ele levantar e com uma lambida engolir o amendoim, para, a seguir voltar para o mesmo lugar em que estava.
Seo Manuel as vezes parece dormir, mas como pato, dorme com um só olho, o outro fica de olho – com trocadilho – na freguesia. As vezes o clima esquenta no boteco, mas o seo Manuel continua lá impassível, só olhando.
Os frequentadores de botecos sabem como tratar os “seo Manuel”, chegam, pedem, bebem e não incomodam o pobre. Na hora de pagar a conta, a mesma coisa, se vai pagar, paga logo, se não , deixa pra outro dia mas não incomode.
Seo Manuel sabe de tudo o que acontece na vizinhança, mas nunca conta nada. Sabe o bicho que vai dar no jogo, mas nunca joga. Sabe com quem o delegado anda saindo nas noites de terça, mas, um túmulo.
As vezes seo manuel age como apaziguador, mas só quando a coisa ameaça o seu cochilo. Nos botecos não há vida alheia, tudo é domínio público. Pode-se falar livremente de todos que não há problema algum, exceto falar mal da mãe, se não a coisa pega.
As vezes inimigos entram nos botecos e saem amigos desde criancinha. Como na vez em que naquela cidade do interior, entraram no bar dois inimigos declarados. Os dois não podiam nem se olhar, eram mais inimigos que Capulletos e Montéquios, mais até que a primeira geração de Campolargos e Vacarianos. Um torcia pelo Galo do Oriente e o outro para o Operários do Lago Sul. Um era getulista de pai e mãe e o outro lacerdista.
Os dois entraram no bar quase que ao mesmo tempo já que o boteco era de esquina Um subia a rua Sete de Setembro enquanto o outro vinha pela Quinze de Novembro. Quando os dois toparam na frente da porta, aquela porta de chanfro na esquina, nem em uma rua nem na outra, houve um silencio no boteco, algumas pessoas afastaram-se do balcão e até o seo manuel abriu os dois olhos, mas em seguida fechou um.
Entraram meio que emparelhado e pediram a mesma bebida. Entreolharam-se desconfiados e a seguir pediram o mesmo tira gosto. Novo olhar de esgueio e desta vez seo Manuel manifestou-se dizendo que sá havia salame para um. Silencio absoluto e após os dois virarem ao mesmo tempo o copo de bebida que tinham em mãos, olharam para o prato de salame que encontrava-se exatamente no meio do caminho entre os dois. O primeiro coçou o bigode enquanto o segundo limpou a testa. Quando todos esperavam uma briga das boas, seo Manuel contou a piada do gaúcho e do baixinho e pronto, os dois se abraçaram e após muita risada, dividiram o salame. Há quem jure que os dois passaram a frequentar as suas casas e até passaram a torcer para o Santos.
O boteco sempre foi ponto de encontro das camadas sociais. Talvez seja o único lugar onde todos são iguais perante lei nenhuma. Não há distinção. É lá que se dá o memorável encontro dos vendedores de produtos variados, sempre com as maletas a tiracolo.
O problema é que uma ameaça de extinção paira sobre os botecos, que tem também outras denominações, como bolicho, butiquim, bar, empório, ali-e-já-volto, esquina, entre tantos outros. Hoje em dia, não há mais espaço para os botecos. O povo não tem mais tempo de parar e tomar uma, e quem para, vejam só voces, é mal visto pela sociedade. Alguns viraram restaurantes ou cafés, e boteco que é boteco mesmo serve no máximo uma parelha de salame, amendoím japonês e ovo cozido, quando muito uma porção mista de queijo com presunto e azeitonas.
A perdição começou quando inventaram de fazer sanduiches nos botecos, aí a coisa ficou irreversível. Aos poucos tudo foi mudando. O cachorro foi enxotado junto com a mosca e, ao par, perambulam pelas ruas vazias das cidades. Encheram-se de mesas e, pior, colocaram garçons. A freguesia foi mudando e fiado hoje em dia é palavrão nesses locais. Quem antigamente frequentava o butiquim, hoje em dia fica em casa assistindo televisão com aquela expressão no rosto de quem perdeu algo. Como a criança atrás da bola de gude que caiu no vão do sofá. Aos poucos, os frequentadores foram sendo expulsos impiedosamente do balcão. Os garçons não os serviam, talvez porque eles insistiam em permanecer de pé diante do inabitado balcão. Os jovens são bens servidos, mas como tomam refrigerante e “diet”, no máximo uma cerveja, rabo de galo nem pensar. Todos os poster’s de propaganda de cigarro foram retirados, em alguns até os cigarros foram retirados. É o fim!
O seu Manuel. Bem, o seu manuel foi aposentado pelo INSS.
Abro enfim uma garrafa de um uruguaio Tanat, bom, límpido e preciso, coloco para tocar Herbie Hankock com sua trupe - Ele no piano, Ron Carter no baixo, Freddie Hubbard no trumpete, Tony Willians na bateria, tocando "Blind Man, Blind Man".... vamos acordar???
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Luiza....
Certa vez um amigo meu ao ouvir essa música tocando em uma determinada ocasião profetizou:
"Sua filha irá se chamar Luiza..."
Algum tempo depois, cá estou eu, aprendendo a ser pai dessa menininha de quase 8 meses chamada Luiza...
Tem sido uma experiência incrível onde certamente eu tenho ganho muito mais do que tenho dado.
A energia, a amorosidade espontânea, o carinho e atenção que recebemos dessas pequenas criaturas divinas é algo a ser respeitado. O retorno é tão imediato que assusta. Se você dá um gesto de carinho, no mesmo momento é retribuído com cem vezes mais.
Minha filhota é hoje a pedra filosofal, fundamental e angular em minha vida. É sobre ela que tenho aprendido a construir e a me reconstruir, tenho me reinventado a todo momento buscando ser uma pessoa melhor para poder ser um pai a altura de minha pequenina.
Como somos tolos. Não há nada mais importante ou significante do que esse amor incondicional que se nutre e se recebe pelos filhos.
Eles chegam sem manual de instrução, sem nenhuma nota explicativa nem botões de desligar...graças a Deus.
Quero aqui agradecer a vida pela oportunidade de ser pai dessa "coisinha" linda e abençoada que é minha filhinha Luiza. Um ser enviado, tenho certeza, para me fazer melhor e maior como ser humano. Um ser humano, na essência da palavra. Vê-la engatinhando é olhar para o paraíso e contemplá-lo. Ouvir seus pequenos "ruídos" é parar para escutar a mais bela sinfonia já tocada. Fazê-la "ninar" em meus braços é abraçar a vida e sorver tudo que há de belo, puro e bom nesse mundo.
Minha filha, a você, minha melhor garrafa de vinho, sempre. Posso abrir um Borgonha, um Barollo, um Bordeaux ou um Rhône, abrirei todos, sempre, e espero tê-la comigo um dia degustando um bom vinho. Coloco para tocar aquele que, na minha modesta opinião, é o melhor disco de jazz já gravado. Não uma faixa, mas o disco todo e adiciono uma imaginária, em uma singela homenagem. "Kind of Blue" é uma unanimidade entre músicos e apreciadores de boa música. vende muito desde 1959, quando foi gravado e traz em sua formação o time dos sonhos daquele momento mágico também. Miles Davis sopra sua magia no trumpete, Bill Evans desliza seus dedos também mágicos no piano, John Coltrane dispensa comentários e nos hipnotiza com o sax tenor, Julian"Cannonball" Aderley é quase uma ilusão no sax alto, Paul Chambers encanta com seus acordes rápidos no contra-baixo, Billy Cobham encanta na batera e pra finalizar, Winton Kelly faz um duo inimaginável no piano....A faixa adicional, imaginária e surreal, traz o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim como convidado e Mr. Winton Keely sede seu piano para o maestro Brasileiro tocar em companhia ilustre o tema de minha filha....,sensacional... assim como Luiza a música e a filha...
Boa semana a todos...
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
O Membro...
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Angico era um ser solitário. Ninguém sabia de onde vinha muito menos para onde iria, se é que iria a algum lugar. Sabiam apenas seu nome, embora muitos duvidasse que esse fosse mesmo seu nome. Assim era Angico. Um homem de expressão perdida, olhar pesado e cansado. Usava sempre as mesmas roupas e essas estavam sempre incrivelmente limpas.
Todos os dias ele chegava ao bar do Zé por volta de 7 horas da noite e pedia um prato comercial (invariavelmente composto de arroz, feijão bife acebolado e batatas fritas, mudando apenas aos sábados). No domingo nunca aparecia e desconfiava-se que ele tinha alguém com quem dividia o dominical, nunca se descobriu.
Era um homem de poucas palavras. Ouvia tudo com aquela cara de quem não está entendendo nada do que está sendo dito, parecia enfim viver em outro planeta.
Antônio, o dono do bar do Zé e D. Julieta eram os poucos que tinham escutado sua voz. Mas fazia muito que ele não falava mais nada. Entrava, tirava o chapéu, seguia para uma mesa nos fundos e ao passar pelo balcão, olhava de canto de olho e fazia um aceno afirmativo com a cabeça para D. Julieta, como que confirmando que queria o de sempre, um PF e um copo de leite. Trajava o mesmo terno de linho castanho de sempre, uma camisa branca, também de linho e uma gravata marrom. Tirava o pó dos sapatos com um lenço que também era sempre muito limpo e encostava-se à cadeira. O olhar sempre perdido no horizonte.
Temia-se que fosse um malfeitor ou então um assassino e que ali encontrava refúgio. D. Julieta pensou até em chamar um cunhado de uma prima, que era investigador de polícia, para observar e seguir o cidadão, porém foi demovida da idéia por S. Antônio que alegava que o Angico pagava em dia, adiantado as vezes e que não poderia ser má pessoa, apenas não gostava de conversa.
Um dia, uma sexta-feira, como hoje, um forasteiro entrou no bar, e ao avistar a figura singular nos fundos, resolveu ir ter com ele.
Sentou-se na mesa ao lado, fez uma graça com a D. Julieta e pediu uma dose de conhaque. Olhou para as prateleiras, cheias de garrafas antigas, algumas de bebidas que nem eram mais produzidas. Ao receber sua dose pediu um prato de salame com queijo mussarela e, se fosse possível, algumas azeitonas. Agradeceu e virando o corpo em direção a Angico dirigiu-lhe a palavra fazendo uma pergunta sobre o dia. O diálogo que descrevo a seguir é o mais próximo da verdade e foi o que sobrou na memória do já falecido S. Antônio e me foi contada ao pé do seu leito de morte como que para posteridade.
- Boa noite amigo. – Disse o forasteiro. Essa chuva não deu trégua o dia todo não? Quase não consigo terminar meus clientes. Ah, antes que eu me esqueça, meu nome é Horácio, a seu dispor.
Angico olhou surpreso para o homem ao seu lado e não sabia direito se estendia sua mão para cumprimentá-lo ou se o ignorava simplesmente. Optou pela primeira opção e apenas acenou com a cabeça. O outro insistiu...
- Vejo que o Senhor não é de muitas palavras. Muito bom, eu também não gosto muita conversa não. Não vou querer atrapalhar o cavalheiro não, fique tranqüilo. É que a vossa figura me lembra muito um falecido vizinho que eu tinha lá no Sul. É realmente muito impressionante a semelhança. Não teria por acaso o Senhor algum parentesco com o S. Antonico Moreira Paes, de Santa Cruz das Missões, teria?
Angico permaneceu olhando para o teto por alguns minutos enquanto o vizinho de mesa recebia seus petiscos pedidos. Ele por certo já desistira de conseguir alguma prosa com Angico quando esse lhe respondeu.
- Nunca ouvi falar.
O homem quase engasgou com um caroço de azeitona que roia nos dentes que por fim conseguiu engolir. Recompondo-se rapidamente levantou, tomou o copo o prato com os frios e pulou para a mesa de Angico que quase levantou quando viu a cena.
- Mas o senhor é a cara do Antonico, que coisa isso não? Deve ser o nariz. Sim, o nariz e a testa são idênticos. Enfim, se o Senhor me diz que não conhece, não conhece então. De onde o senhor é? Está faz muito nessa cidade?
Angico fez menção de levantar-se, mas o estranho colocou a mão em seu braço e pediu que não fosse. Angico sentou.
-Se o senhor não quer conversa tudo bem, mas não levante assim, pega mal. Pode terminar seu jantar sossegado e eu fico quieto aqui.
Angico olhou serenamente para o indivíduo e verificou que usava uma camisa bordô e amarela, muito chamativa, escondia uma correntinha cor de ouro que se podia observar pela abertura do primeiro botão. Uma calça branca já bem gasta e um sapato mocassim marrom claro encerravam a estranha figura.
- Não venho de lugar algum cavalheiro. Respondeu Angico. Estive minha vida todo por aqui. Concluiu.
- Ah, pois eu garanto que o senhor deve conhecer muito do mundo. O senhor tem cara de esperto. To errado?
Novo silêncio angustiante pairou. Era demais, pensou S. Antonio, considerando seriamente a hipótese de sair de trás do balcão e intervir na “conversa”, mas foi impedido por D. Julieta.
- Não, nunca sai daqui. Minha vida toda eu vivi por esses lados. Desde que nasci até hoje, nunca estive em outro lugar.
- Não é possível! Exclamou o outro.
- É sim. É bastante possível e é um fato.
- Mas o senhor nunca teve curiosidade de sair dessa cidade e conhecer o mundo?
- Não.
- Mas é a coisa mais espetacular que eu já ouvi. Alguém que nunca saiu de uma cidade e que não tem curiosidade de conhecer novos lugares. Pois eu não paro duas semanas no mesmo local. Vivo por ai. Minha casa é a estrada e os quartos de hotéis. Sou do mundo meu amigo. Nesse momento deu um tapa na mesa, fazendo S. Antônio dar um salto atrás do balcão tamanha a apreensão, e pediu mais uma dose.
- E traga uma para o cavalheiro aqui também, por favor. Indicando com a mão Angico, como se fossem velhos conhecidos.
Angico não reagiu, apenas observou.
- Mas, me conte amigo, o que o Senhor faz? E por que é tão solitário assim?
Angico olhava para dentro de seu chapéu e, sem levantar os olhos, respondeu:
- Trago comigo uma maldição.
- Pois eu não acredito. Como pode ser amaldiçoado?
- É de família.
- Pois conte-me.
Nesse exato momento S. Antônio chegou com as duas doses, colocou a primeira na frente do estranho e olhou para Angico, como que pedindo autorização para colocar a dele. Com uma menção de olhos Angico concordou e foi servido.
Sorvendo a bebida em um só trago, Angico bebeu o conhaque e colocou o chapéu na cabeça. O outro não se conteve e rogou-lhe.
- Qual é a sua maldição? Por favor, me conte.
- Não acho que seja apropriado.
- Pois eu digo que sim. Pode me dizer que não vou rechaçar a colocação meu Senhor.
Angico observou ao redor e abaixando um pouco a cabeça em direção a seu novo “amigo” disse-lhe:
- Trago uma herança maldita comigo meu caro. Meu tataravô fez um pacto com uma entidade e a paga é que toda a sua descendência deve herdar essa maldita herança e a cada geração ela aumenta, é a sina.
- Mas que maldição é essa? Como pode ser ruim se aumenta a cada geração?
Angico suspirou cansado.
- Acredite em mim, é a pior coisa que se pode pedir.
- Mas me conte, por favor.
- Estou lhe dizendo. Não há nada que eu possa fazer, é uma maldição. Tenho que conviver com isso todos os dias. – Nisso levou sua boca ao pé do ouvido de Horácio e balbuciou algumas palavras.
O rosto do desconhecido enrubeceu-se e seus olhos saltaram.
- Isso só pode ser uma piada. Gracejou Horácio.
- Não, infelizmente não é.
- Pois eu quero uma prova.
Angico enfiou a mão dentro de seu paletó e retirou uma fotografia, já amarelada, a qual depositou em cima da mesa. D. Julieta quase caiu sobre o balcão na tentativa de ver a tal fotografia, sem sucesso porém.
O forasteiro pegou a foto com um sorriso na boca porém uma expressão de horror lhe tomou a face. Um pequeno e abafado grito saiu de seus lábios no mesmo momento que largava a fotografia sobre a mesa. Levantou-se, tirou algumas notas de sua carteira, pagou a conta sem pensar no troco e saiu em desabalada carreira.
Angico olhou a fotografia, mirou o teto mais uma vez como que desesperançoso, levantou e se retirou do bar. Ao passar pelo balcão balançou a cabeça outra vez para os donos do estabelecimento e saiu pela porta. Foi a última vez que foi visto naquele lugar.
Sobre a mesa permaneceu a foto que ao ser recolhida por S. Antônio foi olhada com um misto de surpresa e dó. Antes que D. Julieta chegasse, ele rasgou-a em dezenas de pedaços, jogando-os dentro do copo de leite que permanecera intocado sobre a mesa.
Para a noite de sexta-feira abro uma garrafa de um reticente “Retsina of Attica” oriundo da Grécia e cheio de histórias. Para tocar, coloco o enigmático e genial Thelonious Monk tocando “Ask me Now” com ele próprio no piano, Art Blakey na batera, Freddie Hubbard no trumpete e Jymie Merritt no contra-baixo. Bom final de semana a todos!
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
Lombo de Cordeiro com Creme de Mandioquinha
Vamos aos ingredientes:
Cordeiro:
1kg de lombo de cordeiro cortados em pedaços de aproximadamente 15 cm.
1 taça de vinho tinto (o mesmo que irá beber para acompanhar o prato)
1 cebola pequena
1 dente de alho
1 laranja pera
Algumas folhas de sálvia
4 colheres de azeite de oliva
Sal e pimenta do reino moídos na hora.
Creme:
1/2 Kg de mandioquinha (batata salsa, batatinha barôa...dependendo da região)
1 copo de leite
1 dente de alho picadinho
1 cebola pequena ralada
2 colheres de azeite de oliva
Preparo:
Lombinho:
Coloque o lombinho para "descansar" em um preparado com o vinho, a laranja, a salvia, a cebola picada e o alho cortado. Deixe descansando por cerca de 3 a 4 horas. Após isso, tire os lombinhos e passe o sal e a pimenta do reino*. Lambuze as peças com o azeite e em um prato, coloque um pouco de farinha de trigo peneirada, passe os cortes na farinha. bata para tirar o excesso e leve para uma frigideira ou panela de boa espessura com um fio de óleo de milho. "Sele" de todos os lados para evitar que perca muito sulco. Coe o molho do tempero e quando os lombinhos estiverem dourados retire-os e reserve. Coloque o molho na mesma panela que passou os lombos e baixe o fogo. Apure o molho até que esteja com textura de calda, retorne os lombinhos ao molho e com carinho vá virando-os para que fiquem como que "glaceados".
Creme:
Descasque as mandioquinhas e coloque em uma panela (que pode ser ou não de pressão) com água e um pouquinho de sal. Quando estiverem bem cozidas e macias, retire do fogo e escorra a água, deixando contudo cerca de 1/2 xícara. Pique grosseiramente a mandioquinha e coloque no liquidificador com o caldo que sobrou. Bata até obter um creme homogêneo.
Em uma panela, refogue o alho a cebola e quando estiverem douradinhos, coloque o creme. Corrija o sal e quando já estiver começando a ferver (cuida para não grudar), desligue o fogo e adicione o leite. Mexa bem até homogeneizar tudo.
* Dica. Coloque no liquidificador um copo de sal grosso e uma colher de sopa de pimenta do reino inteira. Bata por alguns minutos até moer bem o sal. Use-o no lugar do sal comum. Além de ser mais saudável (possui menos química) já agrega o sabor da pimenta.
Sirva com o creme como base para os lombinhos. Ajeite-os sobre a cama de mandioquinha e aproveite para se deleitar com o delicioso lombo de cordeiro....
Essa receita me lembra uma incursão ao Mercado Municipal de São Paulo. Eu, um grande amigo e sua namorada resolvemos visitar o Mercadão para comprar, além do cordeiro (lá se encontra os melhores cortes a preços honestos) alguns queijos, frutas e castanhas para o final de semana.
Havia muito eu não ia no Mercado e esse acabara de ser reformado. Ao chegarmos, meu amigo surpreendeu-se com a diversidade de aromas, cores, sabores e simpatia do pessoal do mercado. Meu amigo namorava nessa época uma ex-miss Brasil que estava ingressando na carreira televisiva. Certamente o mercadão não é um local para se olhar vitrines, mas sim para se divertir com o "leilão" vivo que se ouve, para degustar as delícias que nos oferecem em cada barraca, para ouvir novas estórias dos vendedores e também para comer um delicioso pastel de bacalhau. Confesso que fiquei apreensivo com a receptividade para com a moça quando entramos no local. Composto, na sua maioria, por vendedores homens, a presença da miss ali saltou aos olhos de todos. Era uma celebridade no meio do povo. Nem bem entramos e ela já foi cercada por um grupo de pessoas perguntando isso ou aquilo, pedindo autógrafo etc. Demoramos cerca de 1 hora para andarmos uma quadra, a primeira. O namorado dela, meu amigo, levava tudo na esportiva e se divertia com a muvuca que se formou. De verdade, a moça parou o expediente do mercado e uma multidão a seguia por onde quer que ela andasse. No final, foi divertido e todos levaram na esportiva. Compramos o que precisávamos, tomamos umas cervejas e relaxamos.
A noite, ao degustar o cordeiro, rimos muito, os três, com as abordagens, das mais criativas, à moça.
Para o cordeiro eu abro um Sirah jovem, brilhante, fresco e aromático como só ele poderia remeter aos aromas do Mercadão. Coloco para tocar "Mysterious Traveller" com a trupe do Weather Report. Wayne Shorter no sax, Joe Zawinul nos teclados, Jaco Pastorious no baixo, Peter Erskine na bateria e Airto MOreira como convidado de honra na percursão, dão o tom dessa receita....
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Mudança de Hábito...
Ia a pé, que era para abrir o apetite. Passava na banca de jornal do seu Persival. Comprava o exemplar de domingo que o jornaleiro, já sabedor do costume, entregava dobrado ao meio para que seu Anatólio não lesse as manchetes antes da hora. Depois de um dedo e meio de “prosa”, seu Anatólio caminhava calmamente para o bar que ficava do lado esquerdo da praça da matriz, na esquina do Banco do Brasil. Era o “Estrela do Sul”, ou ‘bar do Aderbal’, que era o proprietário. Mas o bar não era famoso pelo Derbal e sim pelas coxinhas de sua mulher, as de galinha. Dona Judith. Se alguém nasce com um dom nessa vida, D. Judith nascera com o dom de fazer coxinhas de galinha. Não eram coxinhas comum, eram especiarias, brevidades. D. Judith as faziam com amor de mãe. As coxinhas eram conhecidas além das fronteiras da cidade.
Seu Anatólio era pontual, chegava ao estabelecimento as nove horas e trinta minutos, nem mais, nem menos. Uma rápida olhada para dentro e já avistava o companheiro. Torquato chegava sempre antes, e já ia pedindo para que fosse preparadas cinco coxinhas, que eram para “dar início”, como ele dizia. O número era sempre ímpar para que um dos dois ficasse com uma parte menor e, por justiça, fosse feito um segundo pedido para “igualar” as coisas.
E era sempre assim, fazia dezessete anos, todo domingo repetia-se a mesma cena. Os velhos amigos colocavam os assuntos em dia, falavam dos seus times e esperavam acabar a missa na matriz que era para dar uma olhadela nas moças que, respeitosamente, passavam dando sorrisinhos.
Nunca viajavam para onde não pudessem voltar a tempo de realizar o ritual gastronomico. Houve até uma ocasião em que o Torquato saiu as pressas do casamento da irmã para que pudesse voltar na mesma noite e no outro dia sentar-se à mesa – sempre a mesma – do Estrela.
Porém, naquele domingo, seu Anatólio não entrou no bar. Cumprimentou o Torquato da porta com um aceno de cabeça e sem pestanejar, seguiu em frente.
Foi uma calamidade. O Aderbal deixou o queixo cair tanto que sua dentadura foi parar embaixo do balcão. O Torquato caiu em prantos e teve que ser retirado do bar por uma equipe de enfermeiros que o levaram na ambulância. D. Judith, coitada, desabou em pranto contínuo e falava repetidamente “ele enjoou. Ele não gosta mais de minhas coxinhas. O que é que eu vou fazer agora.” O pessoal que encontrava-se na praça, que habitualmente observava os amigos saboreando juntos as coxinhas, levantou-se de seus bancos e foi ver o que acontecia. Os rapazes que ficavam rodeando a porta da igreja esperando os olhares rápidos das moças durante a missa, correram para acudir o Jurandir. O Jurandir nunca comia as coxinhas de D. Judith por causa da eterna dieta médica, mas estava sempre sentado à porta do bar para ouvir os “causos” que os companheiros contavam. A notícia espalhou-se rapidamente e logo chegou aos ouvidos do padre Arlindo, que inconformado, encerrou a missa e erguendo a batina saiu correndo. Porém, ao descer as escadas da entrada da igreja, pisou no talar e rolou as escadarias numa cena patética, onde as beatas – que estavam já aos fuxicos comentando o acontecido e especulando o poderia ter acontecido – correram para ajudar o pároco que não conseguia se levantar.
Os moleques da praça que nos finais de semana, por não ter aula, vagueavam com suas bicicletas ao redor da praça, correram na casa do seu Anatólio avisar D. Gerusa que o marido dela havia passado batido pelo bar do Derbal. Trêmula, D. Gerusa aceitou carona na garupa da bicicleta do Téozinho, filho do dentista da prefeitura. E foi ela, com avental e tudo mais, meio desajeitada na traseira da bicicleta, até a praça. Ao chegar na praça, meio zonza com o passeio de bicicleta, D. Gerusa avistou aquele pandemônio todo no largo. Crianças de colo chorando, o padre sentado num banco com uma trinca no tornozelo, por certo em virtude do tombo. As ciganas maldiziam que era um sinal, que o final do mundo estava chegando. Um Testemunha de Jeová que pregava na praça aos domingos gritava histéricamente que o Messias estava voltando, sua mulher que o acompanhava nas pregações, rasgara a blusa e bradava que ele era uma pecadora. As beatas, agora de joelhos no chão cálido de cimento, rezavam um rosário aos prantos e até uma baiana que vendia cocadas por ali, derrepente começou a girar e a receber um encosto de terreiro.
Duas quadras dali, sentado em baixo de uma árvore frondosa estava o S. Anatólio. Vagarosamente, D. Gerusa se aproximava do marido. “Eu não conheço mais esse homem”, pensava ela. “Anatólio”, falou docemente, “o que está acontecendo ?“ o marido olhou-a e nada respondeu. “Fale comigo, homem de Deus. Sou eu a Gerusinha, lembra-se de mim.” Suas mãos tremiam, sentia que suas pernas não aguentariam muito tempo. O marido permanecia impávido, olhando ao longe. Vez em quando olhava para a esposa. “trinta anos, e derrepente uma decepção dessas! Diga alguma coisa, eu não aguento mais. Você tem outra mulher! É isso. Responda para mim, eu não vou ficar brava!. Já sei, tem outra família. Eu já deveria saber. Quantos anos ela tem, quantos filhos tem com a sirigaita. Mas eu entendo, eu sei que no fundo você cansou-se de mim, oh meu Pai”. No alto da árvore, dois corvos negros olhavam aquela passagem insólita e grajearam. D. Gerusa observou os pássaros e benzeu-se com o sinal da cruz. “Só pode ser mau agouro, credo em cruz”.
Aos poucos, o mundaréu de gente aproximava-se do casal. O padre manquitolando e com escoriações múltiplas se achegou ao seu Anatólio e, segurando com a mão esquerda o crucifixo, apoiou a mão direita no ombro do dizimista. “Você tem algo a me contar? “ Mas nada, um rápido olhar de canto de olho e mais nada.
De repente, seu Anatólio levanta-se. O povo todo se afasta e o homem observa aquela pantomina improvisada. Caminha calmamente no sentido de sua casa. A essa altura, o repórter da emissora de rádio local encontrava-se no meio daquela canícula anotando e narrando os fatos que mudaram a rotineira vida da cidade. Com passos largos e espaçados, seu Anatólio retorna ao lar seguido de D. Gerusa. Uma procissão acompanha o casal distante cerca de três metros. Ao entrar em casa, ele olha uma última vez para aquela multidão e entra em casa fechando o portão. A maioria não notou, mas Anatólio tinha um sorriso no canto dos lábios....
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
Sexta-Feira...
Sexta é aquele dia que todo mundo (com algumas exceções, é claro) adora. Adora porque o sábado é amanhã a e amanhã muita gente não trabalha e tira o dia pra curtir a familia, lavar o carro, praticar esportes, ir as compras, enfim, um dia de diversão e que para os mais jovens, tem a noite mais espetacular dos próximos 150 anos, mesmo que essa noite se repita a todo sábado. O problema do sábado é que ele acaba e ai vem o domingo (alguns sábados só acabam na terça-feira, mas isso eu falo mais abaixo) e domingo é terrível, é o dia da desilusão, da ressaca, do desespero, de fazer tarefa, de não ter paciência pra nenhum programa de televisão....terrível e temível...
Estava pensando nos dias da semana, acredito que eles possuam alma....Sim, pois os dias da semana – cada um deles – possuem personalidade própria e influenciam na vida de cada um de nós.
A quarta-feira é um dia forte, marcante, um divisor de águas, ou de semana no caso. Às quartas-feiras, os restaurantes de São Paulo servem feijoada. O ano, no Brasil, praticamente começa em uma quarta-feira cinzenta, e é justamente nesse dia em que o povo brasileiro percebe que o carnaval acabou – alguns insistem em permanecer em carnaval até novembro mas sigamos o roteiro. É realmente um grande dia a quarta.
Assim, observemos que cada dia é um particular.
A segunda-feira, tem nome, sobrenome e até apelido, o dia da preguiça. Mas é uma injustiçada, se tem um dia que trabalha para permanecer vivo é a segunda-feira. Ë uma lutadora, segue firme até que a terça-feira venha, sem pestanejar, apesar da preguiça que lhe é peculiar.
Por falar em terça-feira, esse é um dia com muita presença. Muitos dizem que a semana realmente começa na terça-feira. É o dia em que ativamos nosso motor e damos impulso para mais uma semana de batalhas. Grande dia!
A quarta-feira já foi falada aqui e é realmente grandiosa, é "O" dia....
A quinta-feira, bem, a quinta é uma incognita, um problema. Talvez um caso de falta de caráter, ou insegurança. A quinta vive perseguida pela quarta e à sombra da sexta-feira. Ela não se decide se é ou não é, ninguém sabe ao certo o que representa uma quinta. Todo mundo sabe que começa no final da quarta-feira e termina no início da sexta-feira, e é só. Muita gente leva a quinta sem saber que dia é, comenta-se aqui e ali, às vezes escondidos, na hora do cafezinho, que seria uma quinta-feira, mas na verdade, o que todo mundo está esperando, é que a quinta acabe para que chegue logo a sexta-feira. Existe muita gente reinvidicando um tratamento mais respeitoso a quinta, e eu peço que mandem cartas em defesa desse dia que já andam pensando em retirar do calendário.
A sexta-feira, ou deveria dizer: Ah! sexta-feira!! Sim, esse é o dia mais badalado da semana. A semana toda se resume nesse dia. É o dia dos acontecimentos. Viaja-se nesse dia, as tragédias ocorrem nesse dia. O pessoal vai trabalhar disposto (exceto em Brasília) na sexta. A sexta tem hora pra começar mas nunca para acabar. Ela começa exatamente após o último minuto da quinta (que dia é esse mesmo?) e só vai terminar sabe Deus quando. Um amigo meu diz que a última sexta-feira dele terminou por volta das 16:18hs do sábado, um espetáculo de dia – e noite! Na sexta, não há reclamações no trabalho, e os serviços de reclamações até fecham nesse dia para não haver reclamações, e ninguém reclama. O melhor da sexta, é que no outro dia, é sábado (já bastante exaltado no início do texto).
O sábado é um dia tranquilo, para muitos ele ainda é a sexta-feira em carne e osso, ou horas e minutos. As tardes de sábado são tranquilas e ensolaradas, e se chove, não tem problema, ainda assim é sábado. Deus salve os ingleses!!!
Domingo, bem, primeiramente precisamos resolver se o domingo é fim de semana ou início de semana. Uma classe de alunos de pós graduação e mestrado da Universidade Nacional de Terenos/MS, está realizando intensa pesquisa sobre o tema. Se for início de semana, os jornais de sábado precisam repensar o encerramento, pois quando o âncora diz “boa noite” e a parceira diz, “e um bom final de semana”, está querendo dizer, ‘bom final, final-finalzinho de semana’ ! Eu sustento que o domingo é final de semana até começar o Fantástico ( no meu tempo era até acabar os Trapalhões, mas isso foi há três décadas) após isso, já é segunda-feira.... e ai, lá vamos nós outra vez....
Para não perder o embalo da semana, primeira semana desse espaço virtual aqui, e entrar embalado no sábado, abro uma garrafa de um especialmente delicioso " Insolente Sicilia 2003" vinho de altissimo padrão e que talvez eu nem tenha outra oportunidade de tomá-lo, mas um grande vinho, escuro como a noite, saboroso como a vida, perfeito para esse dia e pra fechar a semana. Como um grande vinho pede um acompanhamento a rígor, coloco pra tocar "Yardbird Suite"com os antológicos Miles e Bird. Miles Davis no trumpete, Charlie "Bird" Parker no sax alto, Bud Powell no piano, Tommy Potter no baixo e Max Roach na bateria. Gravado pelos Gênios em maio de 47..."Hey, Miles! I hear you've been looking for me..." teria dito Bird ao encontrar Davis...genial...