Antônio em tudo aparentava ser uma pessoa como outra qualquer...
Trabalhador sério e comprometido, fazia relativo sucesso profissional e familiar. Não era um homem rico mas tinha uma vida confortável e podia se dar alguns luxos.
Pai amável e bom marido, nunca se queixou de sua vida.
Uma noite porém o telefone tocou. Eram quase 3 horas da madrugada...
Fatos estranhos tiveram início após essa noite...Como eu disse, Antônio era uma pessoa como outra qualquer em tudo? ...Em tudo não, quase tudo...
"..alô - a voz de sono da Marieta acordou Antônio, que não tinha escutado o trilintar do telefone.
- O Antônio, por favor.
- Ton, é pra vc...(mas a essa hora?) disse ela abafando o aparelho.
- Alô...Hã, sim, sei...está bem, estou indo...Disse Antônio, devolvendo o telefone para sua esposa e sentando-se na cama.
- Mas você vai aonde a essa hora homem de Deus? Quem era ?
Mas Antônio não chegou a responder direito, apenas balbuciou algumas palavras e caminhou para o banheiro.
Atônita, Marieta levantou-se e ficou de prontidão na porta. Quando Antônio saiu ela o segurou pelo braço.
- Não vou deixar você sair assim. Onde já se viu, sair no meio da noite sem mais nem menos.
Antônio sorriu para a esposa e indicou a cama. Ela sentou-se aguardando alguma explicação mas, para sua surpresa, observou seu companheiro sair do quarto e fechar a porta atrás de si. Quando chegou na sala só teve tempo de observar pela janela o vulto de Antônio passando ao largo.
A noite era agradável, apesar de ser mês de agosto não fazia frio. Não havia nuvens no céu e por entre os edifícios, postes e árvores era possível observar a lua, quase Nova fazendo um pequeno semi-círculo bem fino no negro azul da madrugada.
Carros eram poucos, mas ainda existiam. Algumas pessoas caminhavam soturnamente pelas calçadas. Bêbados, ladrões e vagabundos se esquivavam pelas sombras. Cachorros viravam latas a procura da refeição diária, alguns tinham que dividí-las com os mendigos e habitantes da noite. O centro da grande metrópole a noite era assim, sombrio. Bastante diferente da agitação e algazarra do dia e muito distante do charme dos bairros e jardins mais abastados. Postes de luz amarela lembravam que aquele local era como um velório quase vazio. O que antes era vida e movimento, agora era silêncio e solidão.
Antônio apagou os faróis do carro e lentamente foi estacionando junto a calçada. Pelo vidro lateral pode observar a luz acesa da janela na sobreloja. Nenhum movimento lá dentro porém. Cuidadosamente, fechou e travou a porta. Lendo um pequeno papel olhou mais uma vez para a janela e se certificou de que era esse mesmo o local.
Não precisou tocar a campanhia nem bater a porta, pois essa encontrava-se semi enconstada.
Uma longa e inclinada escada de alvenaria pairava a frente de Antônio. Na parte de cima um vulto cresceu e junto a escada permaneceu. Após um instante de observação, um sinal com a mão indicava que Antônio deveria subir.
Sem pressa ele subiu. Sua expressão não demonstrava medo nem hesitação, mas uma serenidade incompatível com a situação.
A sobreloja era um ambiente grande e dividido em quatro cômodos. No primeiro havia dois sofás de couro preto e uma mesa triangular no centro. Embaixo da janela um aparador servia de descanso a um velho aparelho telefônico. Do lado oposto, um corredor levava aos demais. No final haveria um lavatório e bem no centro do corredor duas portas se opunham. Do lado direito havia uma cozinha com uma geladeira e uma pia ao lado. Na parede embaixo do vão que dava para o miolo do prédio, ficava uma mesa de fórmica.
Antônio parou em frente a porta da cozinha, costas para esta e olhou para o maior ambiente do lugar.
Era uma sala grande com piso em assoalho encerado. Cadeiras estavam encostadas na parede e um grande balcão estava estacionado do lado oposto da porta. Alguns quadros com retratos humanos estavam pendurados na parede, sobre o balcão. Do lado esquerdo um pequeno vitrô era o único contato com o mundo externo.
No centro da grande sala havia um sofá branco e um preto, cada um em uma extremidade de uma mesa com maciços pés de madeira e um pesado tampo de granito preto. Tão pesado era a pedra que não parecia ser esforço algum sustentar a caixa de cedro envernizada. Jazia sobre a mesa um corpo, zelosamente arrumado dentro do caixão. Na cabeceira, apenas um ramo de oliveira e nos pés um pequeno castiçal erguia uma vela ainda apagada e intacta.
Antônio viu o sinal do anfitrião para que se aproximasse.
Em passos firmes e largos, se dirigiu a mesa....
...continua...
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário