.
.
.
Angico era um ser solitário. Ninguém sabia de onde vinha muito menos para onde iria, se é que iria a algum lugar. Sabiam apenas seu nome, embora muitos duvidasse que esse fosse mesmo seu nome. Assim era Angico. Um homem de expressão perdida, olhar pesado e cansado. Usava sempre as mesmas roupas e essas estavam sempre incrivelmente limpas.
Todos os dias ele chegava ao bar do Zé por volta de 7 horas da noite e pedia um prato comercial (invariavelmente composto de arroz, feijão bife acebolado e batatas fritas, mudando apenas aos sábados). No domingo nunca aparecia e desconfiava-se que ele tinha alguém com quem dividia o dominical, nunca se descobriu.
Era um homem de poucas palavras. Ouvia tudo com aquela cara de quem não está entendendo nada do que está sendo dito, parecia enfim viver em outro planeta.
Antônio, o dono do bar do Zé e D. Julieta eram os poucos que tinham escutado sua voz. Mas fazia muito que ele não falava mais nada. Entrava, tirava o chapéu, seguia para uma mesa nos fundos e ao passar pelo balcão, olhava de canto de olho e fazia um aceno afirmativo com a cabeça para D. Julieta, como que confirmando que queria o de sempre, um PF e um copo de leite. Trajava o mesmo terno de linho castanho de sempre, uma camisa branca, também de linho e uma gravata marrom. Tirava o pó dos sapatos com um lenço que também era sempre muito limpo e encostava-se à cadeira. O olhar sempre perdido no horizonte.
Temia-se que fosse um malfeitor ou então um assassino e que ali encontrava refúgio. D. Julieta pensou até em chamar um cunhado de uma prima, que era investigador de polícia, para observar e seguir o cidadão, porém foi demovida da idéia por S. Antônio que alegava que o Angico pagava em dia, adiantado as vezes e que não poderia ser má pessoa, apenas não gostava de conversa.
Um dia, uma sexta-feira, como hoje, um forasteiro entrou no bar, e ao avistar a figura singular nos fundos, resolveu ir ter com ele.
Sentou-se na mesa ao lado, fez uma graça com a D. Julieta e pediu uma dose de conhaque. Olhou para as prateleiras, cheias de garrafas antigas, algumas de bebidas que nem eram mais produzidas. Ao receber sua dose pediu um prato de salame com queijo mussarela e, se fosse possível, algumas azeitonas. Agradeceu e virando o corpo em direção a Angico dirigiu-lhe a palavra fazendo uma pergunta sobre o dia. O diálogo que descrevo a seguir é o mais próximo da verdade e foi o que sobrou na memória do já falecido S. Antônio e me foi contada ao pé do seu leito de morte como que para posteridade.
- Boa noite amigo. – Disse o forasteiro. Essa chuva não deu trégua o dia todo não? Quase não consigo terminar meus clientes. Ah, antes que eu me esqueça, meu nome é Horácio, a seu dispor.
Angico olhou surpreso para o homem ao seu lado e não sabia direito se estendia sua mão para cumprimentá-lo ou se o ignorava simplesmente. Optou pela primeira opção e apenas acenou com a cabeça. O outro insistiu...
- Vejo que o Senhor não é de muitas palavras. Muito bom, eu também não gosto muita conversa não. Não vou querer atrapalhar o cavalheiro não, fique tranqüilo. É que a vossa figura me lembra muito um falecido vizinho que eu tinha lá no Sul. É realmente muito impressionante a semelhança. Não teria por acaso o Senhor algum parentesco com o S. Antonico Moreira Paes, de Santa Cruz das Missões, teria?
Angico permaneceu olhando para o teto por alguns minutos enquanto o vizinho de mesa recebia seus petiscos pedidos. Ele por certo já desistira de conseguir alguma prosa com Angico quando esse lhe respondeu.
- Nunca ouvi falar.
O homem quase engasgou com um caroço de azeitona que roia nos dentes que por fim conseguiu engolir. Recompondo-se rapidamente levantou, tomou o copo o prato com os frios e pulou para a mesa de Angico que quase levantou quando viu a cena.
- Mas o senhor é a cara do Antonico, que coisa isso não? Deve ser o nariz. Sim, o nariz e a testa são idênticos. Enfim, se o Senhor me diz que não conhece, não conhece então. De onde o senhor é? Está faz muito nessa cidade?
Angico fez menção de levantar-se, mas o estranho colocou a mão em seu braço e pediu que não fosse. Angico sentou.
-Se o senhor não quer conversa tudo bem, mas não levante assim, pega mal. Pode terminar seu jantar sossegado e eu fico quieto aqui.
Angico olhou serenamente para o indivíduo e verificou que usava uma camisa bordô e amarela, muito chamativa, escondia uma correntinha cor de ouro que se podia observar pela abertura do primeiro botão. Uma calça branca já bem gasta e um sapato mocassim marrom claro encerravam a estranha figura.
- Não venho de lugar algum cavalheiro. Respondeu Angico. Estive minha vida todo por aqui. Concluiu.
- Ah, pois eu garanto que o senhor deve conhecer muito do mundo. O senhor tem cara de esperto. To errado?
Novo silêncio angustiante pairou. Era demais, pensou S. Antonio, considerando seriamente a hipótese de sair de trás do balcão e intervir na “conversa”, mas foi impedido por D. Julieta.
- Não, nunca sai daqui. Minha vida toda eu vivi por esses lados. Desde que nasci até hoje, nunca estive em outro lugar.
- Não é possível! Exclamou o outro.
- É sim. É bastante possível e é um fato.
- Mas o senhor nunca teve curiosidade de sair dessa cidade e conhecer o mundo?
- Não.
- Mas é a coisa mais espetacular que eu já ouvi. Alguém que nunca saiu de uma cidade e que não tem curiosidade de conhecer novos lugares. Pois eu não paro duas semanas no mesmo local. Vivo por ai. Minha casa é a estrada e os quartos de hotéis. Sou do mundo meu amigo. Nesse momento deu um tapa na mesa, fazendo S. Antônio dar um salto atrás do balcão tamanha a apreensão, e pediu mais uma dose.
- E traga uma para o cavalheiro aqui também, por favor. Indicando com a mão Angico, como se fossem velhos conhecidos.
Angico não reagiu, apenas observou.
- Mas, me conte amigo, o que o Senhor faz? E por que é tão solitário assim?
Angico olhava para dentro de seu chapéu e, sem levantar os olhos, respondeu:
- Trago comigo uma maldição.
- Pois eu não acredito. Como pode ser amaldiçoado?
- É de família.
- Pois conte-me.
Nesse exato momento S. Antônio chegou com as duas doses, colocou a primeira na frente do estranho e olhou para Angico, como que pedindo autorização para colocar a dele. Com uma menção de olhos Angico concordou e foi servido.
Sorvendo a bebida em um só trago, Angico bebeu o conhaque e colocou o chapéu na cabeça. O outro não se conteve e rogou-lhe.
- Qual é a sua maldição? Por favor, me conte.
- Não acho que seja apropriado.
- Pois eu digo que sim. Pode me dizer que não vou rechaçar a colocação meu Senhor.
Angico observou ao redor e abaixando um pouco a cabeça em direção a seu novo “amigo” disse-lhe:
- Trago uma herança maldita comigo meu caro. Meu tataravô fez um pacto com uma entidade e a paga é que toda a sua descendência deve herdar essa maldita herança e a cada geração ela aumenta, é a sina.
- Mas que maldição é essa? Como pode ser ruim se aumenta a cada geração?
Angico suspirou cansado.
- Acredite em mim, é a pior coisa que se pode pedir.
- Mas me conte, por favor.
- Estou lhe dizendo. Não há nada que eu possa fazer, é uma maldição. Tenho que conviver com isso todos os dias. – Nisso levou sua boca ao pé do ouvido de Horácio e balbuciou algumas palavras.
O rosto do desconhecido enrubeceu-se e seus olhos saltaram.
- Isso só pode ser uma piada. Gracejou Horácio.
- Não, infelizmente não é.
- Pois eu quero uma prova.
Angico enfiou a mão dentro de seu paletó e retirou uma fotografia, já amarelada, a qual depositou em cima da mesa. D. Julieta quase caiu sobre o balcão na tentativa de ver a tal fotografia, sem sucesso porém.
O forasteiro pegou a foto com um sorriso na boca porém uma expressão de horror lhe tomou a face. Um pequeno e abafado grito saiu de seus lábios no mesmo momento que largava a fotografia sobre a mesa. Levantou-se, tirou algumas notas de sua carteira, pagou a conta sem pensar no troco e saiu em desabalada carreira.
Angico olhou a fotografia, mirou o teto mais uma vez como que desesperançoso, levantou e se retirou do bar. Ao passar pelo balcão balançou a cabeça outra vez para os donos do estabelecimento e saiu pela porta. Foi a última vez que foi visto naquele lugar.
Sobre a mesa permaneceu a foto que ao ser recolhida por S. Antônio foi olhada com um misto de surpresa e dó. Antes que D. Julieta chegasse, ele rasgou-a em dezenas de pedaços, jogando-os dentro do copo de leite que permanecera intocado sobre a mesa.
Para a noite de sexta-feira abro uma garrafa de um reticente “Retsina of Attica” oriundo da Grécia e cheio de histórias. Para tocar, coloco o enigmático e genial Thelonious Monk tocando “Ask me Now” com ele próprio no piano, Art Blakey na batera, Freddie Hubbard no trumpete e Jymie Merritt no contra-baixo. Bom final de semana a todos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário