Quinta-feira...
Hoje é dia do "Meu tipo inesquecível..." Algumas pessoas leram meu blog (incrível, eu achei que só eu lia...) e me mandaram alguns mails (foram 3 na verdade) falando sobre a postagem de Meu tipo inesquecível. Gostaram da idéia e sugeriram que eu criasse um espaço periódico com esse sub-título. Gostei e resolvi que nas quintas-feiras irei tentar escreve sobre pessoas que me marcaram e que eu admiro muito. Assim, hoje é dia do "Meu tipo inesquecível..."
Não dá pra falar em alguém inesquecível apenas porque a pessoa já não está mais entre nós. Não quero transformar isso aqui em uma caixinha mortuária de saudosismo. Pretendo lembrar de pessoas que me são importantes independente do pulsar de suas veias atual.
Quando eu me mudei para São Paulo tudo aqui era estranho, monstruosamente estranho. O trânsito, as pessoas, a correria o medo da violência. Tudo assustava e me faziam questionar se valeria a pena investir meu tempo e minha vida para tentar a realização profissional aqui. Lutava sozinho, eu pensava e assim achando, fui criando "cascas" de proteção e gerando temores desnecessários. Tanto stress acabou fazendo meu coração disparar e me fazer pensar que ia morrer no meio da rua e ser jogado em um canto como um "sem nome". Foi ai que a figura de meus pais apareceu. Ligava pra casa pra dizer que estava tudo bem e eles conversavam alguns minutos comigo, sempre me animando e passando sobriedade. "São Paulo acaba se tornando pequeno filho, você vai ver. No fundo é o seu bairro, seus vizinhos, as praças, e você estará em casa..." dizia meu pai. "Quando seu avô era moço ele ia em tal lugar..." animava minha mãe. Sempre me tranquilizando e dizendo que tudo iria dar certo. Assim foi e é (graças a Deus!!!) meu pai e minha mãe. Simples, tranquilos, serenos. Meu pai apressado e pontual como poucos, é verdade. Afobado para fazer as coisas rapidinho, sabe-se se lá porque. Minha mãe perfeccionista e talentosa como ninguém. Os vestidos que faz para minha Luiza são um coisa...
Há quase dez anos eu tive um problema indefinido de saúde. Um dia, estava trabalhando e deixei de sentir o lado direito de meu corpo. Após uma batelada de exames, detectou-se um cisto na minha cabeça. Não souberam dizer ao certo o que seria o corpo estranho alojado na parte traseira do lado esquerdo de meu cérebro. Não sei dizer exatamente a sensação que tive ao saber daquilo mas o olhar calmo e sereno de meu pai ao ouvir do médico o seu parecer me tranquilizou. Ele apenas sorriu tranquilo e disse que tudo ia ficar bem e que era só fazer o que os médicos diziam. Após um chato tratamento a base de cortisona e outras coisas que não me lembro eu estava desanimado pois o quadro ainda não se revertera e ai apareceu meu pai de novo."Você não se preocupe, fica tranquilo que daqui a pouco você estará novo em folha...". E após essas palavras ele e minha mãe me disseram que tinham comprado uma passagem para Campo Grande. Eu deveria descansar um pouco e minha tia, médica e incrível personalidade, estava me esperando para umas "férias" com eles lá. Eu não tinha dinheiro nem pra pagar a faculdade direito e com os gastos extras em medicamentos não imaginava como seria possível viajar naquele momento. Pois fui. Consegui 15 dias de licensa, ganhei a passagem e lá fui eu. Após duas semanas, me sentia vivo novamente. O olhar e o carinho de meus pais me fizeram encarar aquilo apenas como uma dificuldade momentânea e que em breve estaria tudo bem. Minha mãe, bastante religiosa, diz ter feito calos nos joelhos em seus momentos de prece e hoje conta orgulhosa de que presenciou um milagre. O fato é que depois de 8 meses o tal cisto sumiu, desapareceu de meu cérebro, para espanto do neurologista que me atendia.
Foram momentos tensos esses também, mas eles estavam lá. Meus pais, com seu carinho, seu amor e sua sabedoria. São um exemplo a serem seguidos, como pessoas honestas e íntegras que são. Como seres humanos, falhos e verdadeiros e especialmente como pais que criaram 3 filhos e ainda lutam com problemas que eles nem precisavam mais se importar.
Quando meu pai perdeu o emprego (após 25 anos de bons serviços prestados) para nunca mais conseguir um serviço formal. Eles conseguiram manter a família unida e com muita força, passaram pelos momentos mais tristes na vida material quando pais que vêem seus bens e o pouco patrimônio que amealharam serem pilhados por pessoas em quem confiaram demais. Pois eles passaram por isso. Souberam humildecer e encontrar prazer nas coisas mais simples e desprezar a soberba de falsos amigos. Por tudo isso e muito mais que não escrevi ainda aqui, eles são os meus tipos inesquecíveis dessa semana.
Para eles, por eles, abro um Brunello de Montalcino dos talentosíssimos Frescobaldi e coloco para tocar Chick Corea no piano, John Patittuci no baixo, Wayne Shorter no sax e Freddie Hubbard no trumpete. Muito bom...
quinta-feira, 29 de março de 2007
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