Palheta na cabeça, sapato cuidadosamente engraxado, jornal embaixo do braço. O cento-e-vinte impecavelmente engomado. Todo domingo era a mesma coisa. Seu Anatólio saía de casa as nove horas em ponto.
Ia a pé, que era para abrir o apetite. Passava na banca de jornal do seu Persival. Comprava o exemplar de domingo que o jornaleiro, já sabedor do costume, entregava dobrado ao meio para que seu Anatólio não lesse as manchetes antes da hora. Depois de um dedo e meio de “prosa”, seu Anatólio caminhava calmamente para o bar que ficava do lado esquerdo da praça da matriz, na esquina do Banco do Brasil. Era o “Estrela do Sul”, ou ‘bar do Aderbal’, que era o proprietário. Mas o bar não era famoso pelo Derbal e sim pelas coxinhas de sua mulher, as de galinha. Dona Judith. Se alguém nasce com um dom nessa vida, D. Judith nascera com o dom de fazer coxinhas de galinha. Não eram coxinhas comum, eram especiarias, brevidades. D. Judith as faziam com amor de mãe. As coxinhas eram conhecidas além das fronteiras da cidade.
Seu Anatólio era pontual, chegava ao estabelecimento as nove horas e trinta minutos, nem mais, nem menos. Uma rápida olhada para dentro e já avistava o companheiro. Torquato chegava sempre antes, e já ia pedindo para que fosse preparadas cinco coxinhas, que eram para “dar início”, como ele dizia. O número era sempre ímpar para que um dos dois ficasse com uma parte menor e, por justiça, fosse feito um segundo pedido para “igualar” as coisas.
E era sempre assim, fazia dezessete anos, todo domingo repetia-se a mesma cena. Os velhos amigos colocavam os assuntos em dia, falavam dos seus times e esperavam acabar a missa na matriz que era para dar uma olhadela nas moças que, respeitosamente, passavam dando sorrisinhos.
Nunca viajavam para onde não pudessem voltar a tempo de realizar o ritual gastronomico. Houve até uma ocasião em que o Torquato saiu as pressas do casamento da irmã para que pudesse voltar na mesma noite e no outro dia sentar-se à mesa – sempre a mesma – do Estrela.
Porém, naquele domingo, seu Anatólio não entrou no bar. Cumprimentou o Torquato da porta com um aceno de cabeça e sem pestanejar, seguiu em frente.
Foi uma calamidade. O Aderbal deixou o queixo cair tanto que sua dentadura foi parar embaixo do balcão. O Torquato caiu em prantos e teve que ser retirado do bar por uma equipe de enfermeiros que o levaram na ambulância. D. Judith, coitada, desabou em pranto contínuo e falava repetidamente “ele enjoou. Ele não gosta mais de minhas coxinhas. O que é que eu vou fazer agora.” O pessoal que encontrava-se na praça, que habitualmente observava os amigos saboreando juntos as coxinhas, levantou-se de seus bancos e foi ver o que acontecia. Os rapazes que ficavam rodeando a porta da igreja esperando os olhares rápidos das moças durante a missa, correram para acudir o Jurandir. O Jurandir nunca comia as coxinhas de D. Judith por causa da eterna dieta médica, mas estava sempre sentado à porta do bar para ouvir os “causos” que os companheiros contavam. A notícia espalhou-se rapidamente e logo chegou aos ouvidos do padre Arlindo, que inconformado, encerrou a missa e erguendo a batina saiu correndo. Porém, ao descer as escadas da entrada da igreja, pisou no talar e rolou as escadarias numa cena patética, onde as beatas – que estavam já aos fuxicos comentando o acontecido e especulando o poderia ter acontecido – correram para ajudar o pároco que não conseguia se levantar.
Os moleques da praça que nos finais de semana, por não ter aula, vagueavam com suas bicicletas ao redor da praça, correram na casa do seu Anatólio avisar D. Gerusa que o marido dela havia passado batido pelo bar do Derbal. Trêmula, D. Gerusa aceitou carona na garupa da bicicleta do Téozinho, filho do dentista da prefeitura. E foi ela, com avental e tudo mais, meio desajeitada na traseira da bicicleta, até a praça. Ao chegar na praça, meio zonza com o passeio de bicicleta, D. Gerusa avistou aquele pandemônio todo no largo. Crianças de colo chorando, o padre sentado num banco com uma trinca no tornozelo, por certo em virtude do tombo. As ciganas maldiziam que era um sinal, que o final do mundo estava chegando. Um Testemunha de Jeová que pregava na praça aos domingos gritava histéricamente que o Messias estava voltando, sua mulher que o acompanhava nas pregações, rasgara a blusa e bradava que ele era uma pecadora. As beatas, agora de joelhos no chão cálido de cimento, rezavam um rosário aos prantos e até uma baiana que vendia cocadas por ali, derrepente começou a girar e a receber um encosto de terreiro.
Duas quadras dali, sentado em baixo de uma árvore frondosa estava o S. Anatólio. Vagarosamente, D. Gerusa se aproximava do marido. “Eu não conheço mais esse homem”, pensava ela. “Anatólio”, falou docemente, “o que está acontecendo ?“ o marido olhou-a e nada respondeu. “Fale comigo, homem de Deus. Sou eu a Gerusinha, lembra-se de mim.” Suas mãos tremiam, sentia que suas pernas não aguentariam muito tempo. O marido permanecia impávido, olhando ao longe. Vez em quando olhava para a esposa. “trinta anos, e derrepente uma decepção dessas! Diga alguma coisa, eu não aguento mais. Você tem outra mulher! É isso. Responda para mim, eu não vou ficar brava!. Já sei, tem outra família. Eu já deveria saber. Quantos anos ela tem, quantos filhos tem com a sirigaita. Mas eu entendo, eu sei que no fundo você cansou-se de mim, oh meu Pai”. No alto da árvore, dois corvos negros olhavam aquela passagem insólita e grajearam. D. Gerusa observou os pássaros e benzeu-se com o sinal da cruz. “Só pode ser mau agouro, credo em cruz”.
Aos poucos, o mundaréu de gente aproximava-se do casal. O padre manquitolando e com escoriações múltiplas se achegou ao seu Anatólio e, segurando com a mão esquerda o crucifixo, apoiou a mão direita no ombro do dizimista. “Você tem algo a me contar? “ Mas nada, um rápido olhar de canto de olho e mais nada.
De repente, seu Anatólio levanta-se. O povo todo se afasta e o homem observa aquela pantomina improvisada. Caminha calmamente no sentido de sua casa. A essa altura, o repórter da emissora de rádio local encontrava-se no meio daquela canícula anotando e narrando os fatos que mudaram a rotineira vida da cidade. Com passos largos e espaçados, seu Anatólio retorna ao lar seguido de D. Gerusa. Uma procissão acompanha o casal distante cerca de três metros. Ao entrar em casa, ele olha uma última vez para aquela multidão e entra em casa fechando o portão. A maioria não notou, mas Anatólio tinha um sorriso no canto dos lábios....
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
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