Feliz Ano Novo...
Há quem acredite que o ano no Brasil só comece realmente após o carnaval, ou seja, na quarta-feira de cinzas....Eu não. Eu acho que começa mesmo na segunda-feira após o carnaval.
Tudo me parece diferente agora. O trânsito voltou a piorar, as pessoas parecem menos anestesiadas, as sujeiras de Brasilia começam a "pipocar" na imprensa enfim, a engrenagem inicia seu longo e demorado ciclo.
Como eu já havia iniciado meu ano há cerca de dois meses, aproveitei o carnaval para refletir, descansar e tomar algumas atitudes necessárias. Uma delas foi viver mais intensamente mas de maneira leve.
para "começar" o ano novo...
Hoje acordei pensando naquele boteco da esquina. Todo brasileiro que se preze tem um boteco na esquina. Alguns são mais botecos que os outros, mas ainda são botecos. Há botecos em que há apenas um balcão. Outros além do balcão tem prateleiras, são prateleiras cheias de latas de sardinha e vidros com azeitonas e salsichas no vinagre, além é claro das garrafas de cachaça. Existem botecos que são chiques, com espelhos, banquinhos e pasmem, mesas e cadeiras para que os ocupantes sentem, embora muita gente não considere esse tipo de estabelecimento como um verdadeiro boteco. Entretanto, o que chama mais a atenção é aquele senhor que fica atrás do balcão. Esse senhor recebe várias denominações como tio, chapa, aí, meu velho, e outras mais ou menos distintas, mas nós vamos chamar de seo Manuel. Seo Manuel está sempre com a mão esquerda segurando o queixo, um guardanapo, que um dia foi branco, sobre o ombro direito e tem como companhia uma mosca que insiste em pousar sobre seu nariz – sempre limpo pelo dedo mindinho – e o cachorro, esse passa o dia todo dormindo, mas que, basta cair um amendoim no chão para ele levantar e com uma lambida engolir o amendoim, para, a seguir voltar para o mesmo lugar em que estava.
Seo Manuel as vezes parece dormir, mas como pato, dorme com um só olho, o outro fica de olho – com trocadilho – na freguesia. As vezes o clima esquenta no boteco, mas o seo Manuel continua lá impassível, só olhando.
Os frequentadores de botecos sabem como tratar os “seo Manuel”, chegam, pedem, bebem e não incomodam o pobre. Na hora de pagar a conta, a mesma coisa, se vai pagar, paga logo, se não , deixa pra outro dia mas não incomode.
Seo Manuel sabe de tudo o que acontece na vizinhança, mas nunca conta nada. Sabe o bicho que vai dar no jogo, mas nunca joga. Sabe com quem o delegado anda saindo nas noites de terça, mas, um túmulo.
As vezes seo manuel age como apaziguador, mas só quando a coisa ameaça o seu cochilo. Nos botecos não há vida alheia, tudo é domínio público. Pode-se falar livremente de todos que não há problema algum, exceto falar mal da mãe, se não a coisa pega.
As vezes inimigos entram nos botecos e saem amigos desde criancinha. Como na vez em que naquela cidade do interior, entraram no bar dois inimigos declarados. Os dois não podiam nem se olhar, eram mais inimigos que Capulletos e Montéquios, mais até que a primeira geração de Campolargos e Vacarianos. Um torcia pelo Galo do Oriente e o outro para o Operários do Lago Sul. Um era getulista de pai e mãe e o outro lacerdista.
Os dois entraram no bar quase que ao mesmo tempo já que o boteco era de esquina Um subia a rua Sete de Setembro enquanto o outro vinha pela Quinze de Novembro. Quando os dois toparam na frente da porta, aquela porta de chanfro na esquina, nem em uma rua nem na outra, houve um silencio no boteco, algumas pessoas afastaram-se do balcão e até o seo manuel abriu os dois olhos, mas em seguida fechou um.
Entraram meio que emparelhado e pediram a mesma bebida. Entreolharam-se desconfiados e a seguir pediram o mesmo tira gosto. Novo olhar de esgueio e desta vez seo Manuel manifestou-se dizendo que sá havia salame para um. Silencio absoluto e após os dois virarem ao mesmo tempo o copo de bebida que tinham em mãos, olharam para o prato de salame que encontrava-se exatamente no meio do caminho entre os dois. O primeiro coçou o bigode enquanto o segundo limpou a testa. Quando todos esperavam uma briga das boas, seo Manuel contou a piada do gaúcho e do baixinho e pronto, os dois se abraçaram e após muita risada, dividiram o salame. Há quem jure que os dois passaram a frequentar as suas casas e até passaram a torcer para o Santos.
O boteco sempre foi ponto de encontro das camadas sociais. Talvez seja o único lugar onde todos são iguais perante lei nenhuma. Não há distinção. É lá que se dá o memorável encontro dos vendedores de produtos variados, sempre com as maletas a tiracolo.
O problema é que uma ameaça de extinção paira sobre os botecos, que tem também outras denominações, como bolicho, butiquim, bar, empório, ali-e-já-volto, esquina, entre tantos outros. Hoje em dia, não há mais espaço para os botecos. O povo não tem mais tempo de parar e tomar uma, e quem para, vejam só voces, é mal visto pela sociedade. Alguns viraram restaurantes ou cafés, e boteco que é boteco mesmo serve no máximo uma parelha de salame, amendoím japonês e ovo cozido, quando muito uma porção mista de queijo com presunto e azeitonas.
A perdição começou quando inventaram de fazer sanduiches nos botecos, aí a coisa ficou irreversível. Aos poucos tudo foi mudando. O cachorro foi enxotado junto com a mosca e, ao par, perambulam pelas ruas vazias das cidades. Encheram-se de mesas e, pior, colocaram garçons. A freguesia foi mudando e fiado hoje em dia é palavrão nesses locais. Quem antigamente frequentava o butiquim, hoje em dia fica em casa assistindo televisão com aquela expressão no rosto de quem perdeu algo. Como a criança atrás da bola de gude que caiu no vão do sofá. Aos poucos, os frequentadores foram sendo expulsos impiedosamente do balcão. Os garçons não os serviam, talvez porque eles insistiam em permanecer de pé diante do inabitado balcão. Os jovens são bens servidos, mas como tomam refrigerante e “diet”, no máximo uma cerveja, rabo de galo nem pensar. Todos os poster’s de propaganda de cigarro foram retirados, em alguns até os cigarros foram retirados. É o fim!
O seu Manuel. Bem, o seu manuel foi aposentado pelo INSS.
Abro enfim uma garrafa de um uruguaio Tanat, bom, límpido e preciso, coloco para tocar Herbie Hankock com sua trupe - Ele no piano, Ron Carter no baixo, Freddie Hubbard no trumpete, Tony Willians na bateria, tocando "Blind Man, Blind Man".... vamos acordar???
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
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