sexta-feira, 23 de março de 2007

Meu Tipo Inesquecível

Meu avô não era exatamente o esteriótipo do "vovô" quase angelical que se têm comumente.
Tive a sorte de ter tido, durante um período curto é verdade, os 4 avós em convívio.
Meu avô materno era, esse sim, a figura doce que se pode imaginar quando se fala de um avô.
Por pouco mais de 10 anos eu fui brindado com sua convivência. Ah, como era prazeroso visitá-lo na longínqua Campo Grande.
Mas hoje vou falar de meu avô paterno.
Figura singular na familia, eu exagero e chego a dizer que na humanidade, por que não?
Personalidade exagerada, firme, forte. Culto como poucos, ou talvez o mais culto ser com quem já tenha conversado.
Imigrante italiano, seguiu aqui no Brasil o caminho contrário dos imigrantes. Não foi para a roça cultivar café e fazer fortuna, mas, em um mosteiro no Rio Grande aprendeu o português, aperfeiçoou o Latin o Francês, linguas que mais tarde foram se juntar a outras as quais ele dominava como se fosse nativo. Era um incrível poliglota de 8 idiomas, 9 talvez...
Sua cultura não era apenas na liguística. Professor graduado que se tornou, andou pelos caminhos da matemática para mais tarde ensinar quase meia Bauru as operações aritiméticas. Trilhou outros caminhos do saber. Formou-se filósofo (que coisa rara e estranha de se dizer...) e filosofou por algum tempo. Doutourou-se em outros temas.
Conheceu parte da história por ter vivido essa história. História de guerras mundiais, revoluções e evolução que ele acompanhou sempre com olhar atento. Formou e informou muita gente e virou nome de faculdade, ruas e avenidas no interior do Paraná e de São Paulo. Pouco, na minha opinião, mas muito se verificarmos o descaso com os heróis que esse país produz e não dissemina.
Professor Aníbal! Era assim que lhes chamavam. Não eu, para mim era o Vô Aniba.
Era uma figura contraditória para mim. Todo mundo dizia "temê-lo" por sua veemência e rigidez. Era severo com seus pupilos, mas eu nunca o vi assim. Era um "molecão" aos sessenta, setenta e quase aos oitenta. Doce e dócil comigo.
Brincalhão e enérgico sempre. Nunca deixou a peteca cair.
Aos 18 anos fui estudar em Bauru. Naquela época eu não sabia direito o que era estudar ou como estudar. Apenas passei nos vestibulares e no de Direito, em Bauru, eu resolvi seguir e ingressar na faculdade. Eu morava em um prédio antigo no centro velho da cidade. Era um apartamento espaçoso em cima de uma agência bancária e da janela da área de serviço eu podia avistar os fundos da construção ao lado, que na frente abrigava um bar antigo - Bar 1° de Agosto - e nos fundos "escondia" uma cancha de bocha. Era possível ouvir, por volta das 3 da tarde, os gritos dos senhores, geralmente descendentes de italianos, ao redor da cancha. Algumas vezes eu olhava pra baixo e la estava meu avô. Camisa xadrez, o cucuruto avermelhado aparecendo pelo ralo dos cabelos. Me arrependo de não ter descido tantas vezes o visse para poder tomar uma cerveja com ele e dar risada de suas piadas.
Alguns dias da semana eu ia almoçar em sua casa. Após a aula de manhã, eu pegava carona com algum amigo e me dirigia para as Nações Unidas 1441.
Após o almoço (sempre muito gostoso que minha avó preparava com carinho) me sentava com ele na sala de TV e assistia algum noticiário esperando ouvir dele algum comentário inteligente, que sempre vinha.
Meu avô gostava das coisas simples da vida. Nunca se preocupou em enriquecer sua conta bancária além do necessário para pagar as contas e o estudo de seus filhos. Seu bem estar era de fácil satisfação. Tinha sua casa, simples mas confortável, paga (a duras penas é verdade, e com ajuda de meu pai). O seu velho Corcel II 82 era sua preciosidade. Cuidava-o como se fosse realmente um animal de raça. A catarata lhe tomou uma das vistas, mas para alguém como ele, apenas uma das vistas era o suficiente para dirigir seu "carrão" pelas ruas e estradas.
Por volta das 5 da tarde ele me convidava para ir la tomar uma cerveja gelada. E eu ia, mas poderia ter ido mais vezes. Não fui por essas crueldades da vida que nos afasta das pessoas mais velhas quanto somos muito jovens para saber que eles são aquilo que passaremos a vida toda buscando ser.
Hoje quando penso em uma vida feliz, me vem a mente a vida de meu avô.
Consumiu muito mais livros do que modas passageiras. Sorveu mais a essência da vida nos seus meandros cotidianos, nas conversas nos bares honestos e padarias que não existem mais, do que na malícia diária e devoradora que nos aplaca todos os dias. Pôde realizar o sonho de um dia voltar ao seu país natal levando minha vó junto e por lá reencontrou irmãos, primos e tios, além das vilas, caminhos e estrelas que um dia ele deixou pra trás buscando sobreviver.
Suas conversas eram divertidas, sinceras, honestas e claras. Não tinha firulas e não fazia de sua alta cultura um objeto de empáfia. Ao contrário. Com ele aprendi a dar gorjeta nos postos de gasolina. A convidar os carteiros a beber um gole de de café e um copo d'água.
Aprendi que se pode dormir nas missas sem que isso seja pecado. Descobri que devemos ser dignos e que a honra está não na valentia, mas na manutenção de seus princípios.
Seu legado? Acredito ser o melhor e mais bonito que se possa ter. Muitas foram as vezes que ouvi alguns parentes (serpentes!) o criticarem por não ter se engajado na política ou na posição de reitor, sócio ou proprietário de faculdades. Não sabem eles que o seu amor, o seu tesão era ensinar, dar aulas, dentro e fora das classes. Nunca quis ser político porque não era sua índole enriquecer as custas dos outros. Não era sua obrigação deixar herança em dinheiro a ninguém. Deixou sim uma lembrança digna e uma história linda que um dia pretendo contar para meus filhos.
Hoje quando olho para meu pai brincando com minha filha ou minha sobrinha, de certa forma vejo ali o "espírito" do vô Aniba. Sério porém brincalhão. Fazendo piadinhas com as crianças e com os adultos, sem ser incoveniente.
Levando a sério a vida, mas sem deixar de achar graça nas coisas que são engraçadas.
A convivência com meu avô me foi a maior aula de humanidade, história, civilidade e educação que eu posso imaginar que alguém possa ter.
Me lembro que no dia de seu velório eu não consegui chegar muito próximo de seu corpo. Minhas lágrimas não me deixavam se aproximar daquele que fora meu herói e, heróis não morrem. Tenho certeza de que aquela foi apenas mais uma brincadeira, que ja dura mais de 10 anos e que hoje ele deve estar ensinando outras crianças e jovens por esse mundo afora.

Para esse momento de saudades, abro um vinho simples, mas honesto e produzido pelas origens de meu avô. Um Barbera D'Asti, perfeito. Coloco o Miles Davis tocando "Someday my Prince will come" com ele no trumpete, Ron Carter no Baixo, Evans no piano. Apenas os 3 dessa vez, para que o som seja mais puro.

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