terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Ano novo e botecos...

Feliz Ano Novo...

Há quem acredite que o ano no Brasil só comece realmente após o carnaval, ou seja, na quarta-feira de cinzas....Eu não. Eu acho que começa mesmo na segunda-feira após o carnaval.
Tudo me parece diferente agora. O trânsito voltou a piorar, as pessoas parecem menos anestesiadas, as sujeiras de Brasilia começam a "pipocar" na imprensa enfim, a engrenagem inicia seu longo e demorado ciclo.
Como eu já havia iniciado meu ano há cerca de dois meses, aproveitei o carnaval para refletir, descansar e tomar algumas atitudes necessárias. Uma delas foi viver mais intensamente mas de maneira leve.

para "começar" o ano novo...

Hoje acordei pensando naquele boteco da esquina. Todo brasileiro que se preze tem um boteco na esquina. Alguns são mais botecos que os outros, mas ainda são botecos. Há botecos em que há apenas um balcão. Outros além do balcão tem prateleiras, são prateleiras cheias de latas de sardinha e vidros com azeitonas e salsichas no vinagre, além é claro das garrafas de cachaça. Existem botecos que são chiques, com espelhos, banquinhos e pasmem, mesas e cadeiras para que os ocupantes sentem, embora muita gente não considere esse tipo de estabelecimento como um verdadeiro boteco. Entretanto, o que chama mais a atenção é aquele senhor que fica atrás do balcão. Esse senhor recebe várias denominações como tio, chapa, aí, meu velho, e outras mais ou menos distintas, mas nós vamos chamar de seo Manuel. Seo Manuel está sempre com a mão esquerda segurando o queixo, um guardanapo, que um dia foi branco, sobre o ombro direito e tem como companhia uma mosca que insiste em pousar sobre seu nariz – sempre limpo pelo dedo mindinho – e o cachorro, esse passa o dia todo dormindo, mas que, basta cair um amendoim no chão para ele levantar e com uma lambida engolir o amendoim, para, a seguir voltar para o mesmo lugar em que estava.
Seo Manuel as vezes parece dormir, mas como pato, dorme com um só olho, o outro fica de olho – com trocadilho – na freguesia. As vezes o clima esquenta no boteco, mas o seo Manuel continua lá impassível, só olhando.
Os frequentadores de botecos sabem como tratar os “seo Manuel”, chegam, pedem, bebem e não incomodam o pobre. Na hora de pagar a conta, a mesma coisa, se vai pagar, paga logo, se não , deixa pra outro dia mas não incomode.
Seo Manuel sabe de tudo o que acontece na vizinhança, mas nunca conta nada. Sabe o bicho que vai dar no jogo, mas nunca joga. Sabe com quem o delegado anda saindo nas noites de terça, mas, um túmulo.
As vezes seo manuel age como apaziguador, mas só quando a coisa ameaça o seu cochilo. Nos botecos não há vida alheia, tudo é domínio público. Pode-se falar livremente de todos que não há problema algum, exceto falar mal da mãe, se não a coisa pega.
As vezes inimigos entram nos botecos e saem amigos desde criancinha. Como na vez em que naquela cidade do interior, entraram no bar dois inimigos declarados. Os dois não podiam nem se olhar, eram mais inimigos que Capulletos e Montéquios, mais até que a primeira geração de Campolargos e Vacarianos. Um torcia pelo Galo do Oriente e o outro para o Operários do Lago Sul. Um era getulista de pai e mãe e o outro lacerdista.
Os dois entraram no bar quase que ao mesmo tempo já que o boteco era de esquina Um subia a rua Sete de Setembro enquanto o outro vinha pela Quinze de Novembro. Quando os dois toparam na frente da porta, aquela porta de chanfro na esquina, nem em uma rua nem na outra, houve um silencio no boteco, algumas pessoas afastaram-se do balcão e até o seo manuel abriu os dois olhos, mas em seguida fechou um.
Entraram meio que emparelhado e pediram a mesma bebida. Entreolharam-se desconfiados e a seguir pediram o mesmo tira gosto. Novo olhar de esgueio e desta vez seo Manuel manifestou-se dizendo que sá havia salame para um. Silencio absoluto e após os dois virarem ao mesmo tempo o copo de bebida que tinham em mãos, olharam para o prato de salame que encontrava-se exatamente no meio do caminho entre os dois. O primeiro coçou o bigode enquanto o segundo limpou a testa. Quando todos esperavam uma briga das boas, seo Manuel contou a piada do gaúcho e do baixinho e pronto, os dois se abraçaram e após muita risada, dividiram o salame. Há quem jure que os dois passaram a frequentar as suas casas e até passaram a torcer para o Santos.
O boteco sempre foi ponto de encontro das camadas sociais. Talvez seja o único lugar onde todos são iguais perante lei nenhuma. Não há distinção. É lá que se dá o memorável encontro dos vendedores de produtos variados, sempre com as maletas a tiracolo.
O problema é que uma ameaça de extinção paira sobre os botecos, que tem também outras denominações, como bolicho, butiquim, bar, empório, ali-e-já-volto, esquina, entre tantos outros. Hoje em dia, não há mais espaço para os botecos. O povo não tem mais tempo de parar e tomar uma, e quem para, vejam só voces, é mal visto pela sociedade. Alguns viraram restaurantes ou cafés, e boteco que é boteco mesmo serve no máximo uma parelha de salame, amendoím japonês e ovo cozido, quando muito uma porção mista de queijo com presunto e azeitonas.
A perdição começou quando inventaram de fazer sanduiches nos botecos, aí a coisa ficou irreversível. Aos poucos tudo foi mudando. O cachorro foi enxotado junto com a mosca e, ao par, perambulam pelas ruas vazias das cidades. Encheram-se de mesas e, pior, colocaram garçons. A freguesia foi mudando e fiado hoje em dia é palavrão nesses locais. Quem antigamente frequentava o butiquim, hoje em dia fica em casa assistindo televisão com aquela expressão no rosto de quem perdeu algo. Como a criança atrás da bola de gude que caiu no vão do sofá. Aos poucos, os frequentadores foram sendo expulsos impiedosamente do balcão. Os garçons não os serviam, talvez porque eles insistiam em permanecer de pé diante do inabitado balcão. Os jovens são bens servidos, mas como tomam refrigerante e “diet”, no máximo uma cerveja, rabo de galo nem pensar. Todos os poster’s de propaganda de cigarro foram retirados, em alguns até os cigarros foram retirados. É o fim!
O seu Manuel. Bem, o seu manuel foi aposentado pelo INSS.

Abro enfim uma garrafa de um uruguaio Tanat, bom, límpido e preciso, coloco para tocar Herbie Hankock com sua trupe - Ele no piano, Ron Carter no baixo, Freddie Hubbard no trumpete, Tony Willians na bateria, tocando "Blind Man, Blind Man".... vamos acordar???

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Luiza....

"Lua, espada nua, bóia no céu imensa e amarela, tão redonda a Lua..."

Certa vez um amigo meu ao ouvir essa música tocando em uma determinada ocasião profetizou:
"Sua filha irá se chamar Luiza..."
Algum tempo depois, cá estou eu, aprendendo a ser pai dessa menininha de quase 8 meses chamada Luiza...
Tem sido uma experiência incrível onde certamente eu tenho ganho muito mais do que tenho dado.
A energia, a amorosidade espontânea, o carinho e atenção que recebemos dessas pequenas criaturas divinas é algo a ser respeitado. O retorno é tão imediato que assusta. Se você dá um gesto de carinho, no mesmo momento é retribuído com cem vezes mais.
Minha filhota é hoje a pedra filosofal, fundamental e angular em minha vida. É sobre ela que tenho aprendido a construir e a me reconstruir, tenho me reinventado a todo momento buscando ser uma pessoa melhor para poder ser um pai a altura de minha pequenina.
Como somos tolos. Não há nada mais importante ou significante do que esse amor incondicional que se nutre e se recebe pelos filhos.
Eles chegam sem manual de instrução, sem nenhuma nota explicativa nem botões de desligar...graças a Deus.
Quero aqui agradecer a vida pela oportunidade de ser pai dessa "coisinha" linda e abençoada que é minha filhinha Luiza. Um ser enviado, tenho certeza, para me fazer melhor e maior como ser humano. Um ser humano, na essência da palavra. Vê-la engatinhando é olhar para o paraíso e contemplá-lo. Ouvir seus pequenos "ruídos" é parar para escutar a mais bela sinfonia já tocada. Fazê-la "ninar" em meus braços é abraçar a vida e sorver tudo que há de belo, puro e bom nesse mundo.
Minha filha, a você, minha melhor garrafa de vinho, sempre. Posso abrir um Borgonha, um Barollo, um Bordeaux ou um Rhône, abrirei todos, sempre, e espero tê-la comigo um dia degustando um bom vinho. Coloco para tocar aquele que, na minha modesta opinião, é o melhor disco de jazz já gravado. Não uma faixa, mas o disco todo e adiciono uma imaginária, em uma singela homenagem. "Kind of Blue" é uma unanimidade entre músicos e apreciadores de boa música. vende muito desde 1959, quando foi gravado e traz em sua formação o time dos sonhos daquele momento mágico também. Miles Davis sopra sua magia no trumpete, Bill Evans desliza seus dedos também mágicos no piano, John Coltrane dispensa comentários e nos hipnotiza com o sax tenor, Julian"Cannonball" Aderley é quase uma ilusão no sax alto, Paul Chambers encanta com seus acordes rápidos no contra-baixo, Billy Cobham encanta na batera e pra finalizar, Winton Kelly faz um duo inimaginável no piano....A faixa adicional, imaginária e surreal, traz o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim como convidado e Mr. Winton Keely sede seu piano para o maestro Brasileiro tocar em companhia ilustre o tema de minha filha....,sensacional... assim como Luiza a música e a filha...
Boa semana a todos...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

O Membro...

Para terminar a semana....
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Angico era um ser solitário. Ninguém sabia de onde vinha muito menos para onde iria, se é que iria a algum lugar. Sabiam apenas seu nome, embora muitos duvidasse que esse fosse mesmo seu nome. Assim era Angico. Um homem de expressão perdida, olhar pesado e cansado. Usava sempre as mesmas roupas e essas estavam sempre incrivelmente limpas.

Todos os dias ele chegava ao bar do Zé por volta de 7 horas da noite e pedia um prato comercial (invariavelmente composto de arroz, feijão bife acebolado e batatas fritas, mudando apenas aos sábados). No domingo nunca aparecia e desconfiava-se que ele tinha alguém com quem dividia o dominical, nunca se descobriu.

Era um homem de poucas palavras. Ouvia tudo com aquela cara de quem não está entendendo nada do que está sendo dito, parecia enfim viver em outro planeta.

Antônio, o dono do bar do Zé e D. Julieta eram os poucos que tinham escutado sua voz. Mas fazia muito que ele não falava mais nada. Entrava, tirava o chapéu, seguia para uma mesa nos fundos e ao passar pelo balcão, olhava de canto de olho e fazia um aceno afirmativo com a cabeça para D. Julieta, como que confirmando que queria o de sempre, um PF e um copo de leite. Trajava o mesmo terno de linho castanho de sempre, uma camisa branca, também de linho e uma gravata marrom. Tirava o pó dos sapatos com um lenço que também era sempre muito limpo e encostava-se à cadeira. O olhar sempre perdido no horizonte.

Temia-se que fosse um malfeitor ou então um assassino e que ali encontrava refúgio. D. Julieta pensou até em chamar um cunhado de uma prima, que era investigador de polícia, para observar e seguir o cidadão, porém foi demovida da idéia por S. Antônio que alegava que o Angico pagava em dia, adiantado as vezes e que não poderia ser má pessoa, apenas não gostava de conversa.

Um dia, uma sexta-feira, como hoje, um forasteiro entrou no bar, e ao avistar a figura singular nos fundos, resolveu ir ter com ele.

Sentou-se na mesa ao lado, fez uma graça com a D. Julieta e pediu uma dose de conhaque. Olhou para as prateleiras, cheias de garrafas antigas, algumas de bebidas que nem eram mais produzidas. Ao receber sua dose pediu um prato de salame com queijo mussarela e, se fosse possível, algumas azeitonas. Agradeceu e virando o corpo em direção a Angico dirigiu-lhe a palavra fazendo uma pergunta sobre o dia. O diálogo que descrevo a seguir é o mais próximo da verdade e foi o que sobrou na memória do já falecido S. Antônio e me foi contada ao pé do seu leito de morte como que para posteridade.

- Boa noite amigo. – Disse o forasteiro. Essa chuva não deu trégua o dia todo não? Quase não consigo terminar meus clientes. Ah, antes que eu me esqueça, meu nome é Horácio, a seu dispor.

Angico olhou surpreso para o homem ao seu lado e não sabia direito se estendia sua mão para cumprimentá-lo ou se o ignorava simplesmente. Optou pela primeira opção e apenas acenou com a cabeça. O outro insistiu...

- Vejo que o Senhor não é de muitas palavras. Muito bom, eu também não gosto muita conversa não. Não vou querer atrapalhar o cavalheiro não, fique tranqüilo. É que a vossa figura me lembra muito um falecido vizinho que eu tinha lá no Sul. É realmente muito impressionante a semelhança. Não teria por acaso o Senhor algum parentesco com o S. Antonico Moreira Paes, de Santa Cruz das Missões, teria?

Angico permaneceu olhando para o teto por alguns minutos enquanto o vizinho de mesa recebia seus petiscos pedidos. Ele por certo já desistira de conseguir alguma prosa com Angico quando esse lhe respondeu.

- Nunca ouvi falar.

O homem quase engasgou com um caroço de azeitona que roia nos dentes que por fim conseguiu engolir. Recompondo-se rapidamente levantou, tomou o copo o prato com os frios e pulou para a mesa de Angico que quase levantou quando viu a cena.

- Mas o senhor é a cara do Antonico, que coisa isso não? Deve ser o nariz. Sim, o nariz e a testa são idênticos. Enfim, se o Senhor me diz que não conhece, não conhece então. De onde o senhor é? Está faz muito nessa cidade?

Angico fez menção de levantar-se, mas o estranho colocou a mão em seu braço e pediu que não fosse. Angico sentou.

-Se o senhor não quer conversa tudo bem, mas não levante assim, pega mal. Pode terminar seu jantar sossegado e eu fico quieto aqui.

Angico olhou serenamente para o indivíduo e verificou que usava uma camisa bordô e amarela, muito chamativa, escondia uma correntinha cor de ouro que se podia observar pela abertura do primeiro botão. Uma calça branca já bem gasta e um sapato mocassim marrom claro encerravam a estranha figura.

- Não venho de lugar algum cavalheiro. Respondeu Angico. Estive minha vida todo por aqui. Concluiu.

- Ah, pois eu garanto que o senhor deve conhecer muito do mundo. O senhor tem cara de esperto. To errado?

Novo silêncio angustiante pairou. Era demais, pensou S. Antonio, considerando seriamente a hipótese de sair de trás do balcão e intervir na “conversa”, mas foi impedido por D. Julieta.

- Não, nunca sai daqui. Minha vida toda eu vivi por esses lados. Desde que nasci até hoje, nunca estive em outro lugar.

- Não é possível! Exclamou o outro.

- É sim. É bastante possível e é um fato.

- Mas o senhor nunca teve curiosidade de sair dessa cidade e conhecer o mundo?

- Não.

- Mas é a coisa mais espetacular que eu já ouvi. Alguém que nunca saiu de uma cidade e que não tem curiosidade de conhecer novos lugares. Pois eu não paro duas semanas no mesmo local. Vivo por ai. Minha casa é a estrada e os quartos de hotéis. Sou do mundo meu amigo. Nesse momento deu um tapa na mesa, fazendo S. Antônio dar um salto atrás do balcão tamanha a apreensão, e pediu mais uma dose.

- E traga uma para o cavalheiro aqui também, por favor. Indicando com a mão Angico, como se fossem velhos conhecidos.

Angico não reagiu, apenas observou.

- Mas, me conte amigo, o que o Senhor faz? E por que é tão solitário assim?

Angico olhava para dentro de seu chapéu e, sem levantar os olhos, respondeu:

- Trago comigo uma maldição.

- Pois eu não acredito. Como pode ser amaldiçoado?

- É de família.

- Pois conte-me.

Nesse exato momento S. Antônio chegou com as duas doses, colocou a primeira na frente do estranho e olhou para Angico, como que pedindo autorização para colocar a dele. Com uma menção de olhos Angico concordou e foi servido.

Sorvendo a bebida em um só trago, Angico bebeu o conhaque e colocou o chapéu na cabeça. O outro não se conteve e rogou-lhe.

- Qual é a sua maldição? Por favor, me conte.

- Não acho que seja apropriado.

- Pois eu digo que sim. Pode me dizer que não vou rechaçar a colocação meu Senhor.

Angico observou ao redor e abaixando um pouco a cabeça em direção a seu novo “amigo” disse-lhe:

- Trago uma herança maldita comigo meu caro. Meu tataravô fez um pacto com uma entidade e a paga é que toda a sua descendência deve herdar essa maldita herança e a cada geração ela aumenta, é a sina.

- Mas que maldição é essa? Como pode ser ruim se aumenta a cada geração?

Angico suspirou cansado.

- Acredite em mim, é a pior coisa que se pode pedir.

- Mas me conte, por favor.

- Estou lhe dizendo. Não há nada que eu possa fazer, é uma maldição. Tenho que conviver com isso todos os dias. – Nisso levou sua boca ao pé do ouvido de Horácio e balbuciou algumas palavras.

O rosto do desconhecido enrubeceu-se e seus olhos saltaram.

- Isso só pode ser uma piada. Gracejou Horácio.

- Não, infelizmente não é.

- Pois eu quero uma prova.

Angico enfiou a mão dentro de seu paletó e retirou uma fotografia, já amarelada, a qual depositou em cima da mesa. D. Julieta quase caiu sobre o balcão na tentativa de ver a tal fotografia, sem sucesso porém.

O forasteiro pegou a foto com um sorriso na boca porém uma expressão de horror lhe tomou a face. Um pequeno e abafado grito saiu de seus lábios no mesmo momento que largava a fotografia sobre a mesa. Levantou-se, tirou algumas notas de sua carteira, pagou a conta sem pensar no troco e saiu em desabalada carreira.

Angico olhou a fotografia, mirou o teto mais uma vez como que desesperançoso, levantou e se retirou do bar. Ao passar pelo balcão balançou a cabeça outra vez para os donos do estabelecimento e saiu pela porta. Foi a última vez que foi visto naquele lugar.

Sobre a mesa permaneceu a foto que ao ser recolhida por S. Antônio foi olhada com um misto de surpresa e dó. Antes que D. Julieta chegasse, ele rasgou-a em dezenas de pedaços, jogando-os dentro do copo de leite que permanecera intocado sobre a mesa.

Para a noite de sexta-feira abro uma garrafa de um reticente “Retsina of Attica” oriundo da Grécia e cheio de histórias. Para tocar, coloco o enigmático e genial Thelonious Monk tocando “Ask me Now” com ele próprio no piano, Art Blakey na batera, Freddie Hubbard no trumpete e Jymie Merritt no contra-baixo. Bom final de semana a todos!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Lombo de Cordeiro com Creme de Mandioquinha

A receita de hoje é de bastante simples de fazer mas muito saborosa.
Vamos aos ingredientes:

Cordeiro:
1kg de lombo de cordeiro cortados em pedaços de aproximadamente 15 cm.
1 taça de vinho tinto (o mesmo que irá beber para acompanhar o prato)
1 cebola pequena
1 dente de alho
1 laranja pera
Algumas folhas de sálvia
4 colheres de azeite de oliva
Sal e pimenta do reino moídos na hora.

Creme:
1/2 Kg de mandioquinha (batata salsa, batatinha barôa...dependendo da região)
1 copo de leite
1 dente de alho picadinho
1 cebola pequena ralada
2 colheres de azeite de oliva

Preparo:

Lombinho:
Coloque o lombinho para "descansar" em um preparado com o vinho, a laranja, a salvia, a cebola picada e o alho cortado. Deixe descansando por cerca de 3 a 4 horas. Após isso, tire os lombinhos e passe o sal e a pimenta do reino*. Lambuze as peças com o azeite e em um prato, coloque um pouco de farinha de trigo peneirada, passe os cortes na farinha. bata para tirar o excesso e leve para uma frigideira ou panela de boa espessura com um fio de óleo de milho. "Sele" de todos os lados para evitar que perca muito sulco. Coe o molho do tempero e quando os lombinhos estiverem dourados retire-os e reserve. Coloque o molho na mesma panela que passou os lombos e baixe o fogo. Apure o molho até que esteja com textura de calda, retorne os lombinhos ao molho e com carinho vá virando-os para que fiquem como que "glaceados".

Creme:

Descasque as mandioquinhas e coloque em uma panela (que pode ser ou não de pressão) com água e um pouquinho de sal. Quando estiverem bem cozidas e macias, retire do fogo e escorra a água, deixando contudo cerca de 1/2 xícara. Pique grosseiramente a mandioquinha e coloque no liquidificador com o caldo que sobrou. Bata até obter um creme homogêneo.
Em uma panela, refogue o alho a cebola e quando estiverem douradinhos, coloque o creme. Corrija o sal e quando já estiver começando a ferver (cuida para não grudar), desligue o fogo e adicione o leite. Mexa bem até homogeneizar tudo.

* Dica. Coloque no liquidificador um copo de sal grosso e uma colher de sopa de pimenta do reino inteira. Bata por alguns minutos até moer bem o sal. Use-o no lugar do sal comum. Além de ser mais saudável (possui menos química) já agrega o sabor da pimenta.

Sirva com o creme como base para os lombinhos. Ajeite-os sobre a cama de mandioquinha e aproveite para se deleitar com o delicioso lombo de cordeiro....

Essa receita me lembra uma incursão ao Mercado Municipal de São Paulo. Eu, um grande amigo e sua namorada resolvemos visitar o Mercadão para comprar, além do cordeiro (lá se encontra os melhores cortes a preços honestos) alguns queijos, frutas e castanhas para o final de semana.
Havia muito eu não ia no Mercado e esse acabara de ser reformado. Ao chegarmos, meu amigo surpreendeu-se com a diversidade de aromas, cores, sabores e simpatia do pessoal do mercado. Meu amigo namorava nessa época uma ex-miss Brasil que estava ingressando na carreira televisiva. Certamente o mercadão não é um local para se olhar vitrines, mas sim para se divertir com o "leilão" vivo que se ouve, para degustar as delícias que nos oferecem em cada barraca, para ouvir novas estórias dos vendedores e também para comer um delicioso pastel de bacalhau. Confesso que fiquei apreensivo com a receptividade para com a moça quando entramos no local. Composto, na sua maioria, por vendedores homens, a presença da miss ali saltou aos olhos de todos. Era uma celebridade no meio do povo. Nem bem entramos e ela já foi cercada por um grupo de pessoas perguntando isso ou aquilo, pedindo autógrafo etc. Demoramos cerca de 1 hora para andarmos uma quadra, a primeira. O namorado dela, meu amigo, levava tudo na esportiva e se divertia com a muvuca que se formou. De verdade, a moça parou o expediente do mercado e uma multidão a seguia por onde quer que ela andasse. No final, foi divertido e todos levaram na esportiva. Compramos o que precisávamos, tomamos umas cervejas e relaxamos.
A noite, ao degustar o cordeiro, rimos muito, os três, com as abordagens, das mais criativas, à moça.

Para o cordeiro eu abro um Sirah jovem, brilhante, fresco e aromático como só ele poderia remeter aos aromas do Mercadão. Coloco para tocar "Mysterious Traveller" com a trupe do Weather Report. Wayne Shorter no sax, Joe Zawinul nos teclados, Jaco Pastorious no baixo, Peter Erskine na bateria e Airto MOreira como convidado de honra na percursão, dão o tom dessa receita....

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Mudança de Hábito...

Palheta na cabeça, sapato cuidadosamente engraxado, jornal embaixo do braço. O cento-e-vinte impecavelmente engomado. Todo domingo era a mesma coisa. Seu Anatólio saía de casa as nove horas em ponto.
Ia a pé, que era para abrir o apetite. Passava na banca de jornal do seu Persival. Comprava o exemplar de domingo que o jornaleiro, já sabedor do costume, entregava dobrado ao meio para que seu Anatólio não lesse as manchetes antes da hora. Depois de um dedo e meio de “prosa”, seu Anatólio caminhava calmamente para o bar que ficava do lado esquerdo da praça da matriz, na esquina do Banco do Brasil. Era o “Estrela do Sul”, ou ‘bar do Aderbal’, que era o proprietário. Mas o bar não era famoso pelo Derbal e sim pelas coxinhas de sua mulher, as de galinha. Dona Judith. Se alguém nasce com um dom nessa vida, D. Judith nascera com o dom de fazer coxinhas de galinha. Não eram coxinhas comum, eram especiarias, brevidades. D. Judith as faziam com amor de mãe. As coxinhas eram conhecidas além das fronteiras da cidade.
Seu Anatólio era pontual, chegava ao estabelecimento as nove horas e trinta minutos, nem mais, nem menos. Uma rápida olhada para dentro e já avistava o companheiro. Torquato chegava sempre antes, e já ia pedindo para que fosse preparadas cinco coxinhas, que eram para “dar início”, como ele dizia. O número era sempre ímpar para que um dos dois ficasse com uma parte menor e, por justiça, fosse feito um segundo pedido para “igualar” as coisas.
E era sempre assim, fazia dezessete anos, todo domingo repetia-se a mesma cena. Os velhos amigos colocavam os assuntos em dia, falavam dos seus times e esperavam acabar a missa na matriz que era para dar uma olhadela nas moças que, respeitosamente, passavam dando sorrisinhos.
Nunca viajavam para onde não pudessem voltar a tempo de realizar o ritual gastronomico. Houve até uma ocasião em que o Torquato saiu as pressas do casamento da irmã para que pudesse voltar na mesma noite e no outro dia sentar-se à mesa – sempre a mesma – do Estrela.
Porém, naquele domingo, seu Anatólio não entrou no bar. Cumprimentou o Torquato da porta com um aceno de cabeça e sem pestanejar, seguiu em frente.
Foi uma calamidade. O Aderbal deixou o queixo cair tanto que sua dentadura foi parar embaixo do balcão. O Torquato caiu em prantos e teve que ser retirado do bar por uma equipe de enfermeiros que o levaram na ambulância. D. Judith, coitada, desabou em pranto contínuo e falava repetidamente “ele enjoou. Ele não gosta mais de minhas coxinhas. O que é que eu vou fazer agora.” O pessoal que encontrava-se na praça, que habitualmente observava os amigos saboreando juntos as coxinhas, levantou-se de seus bancos e foi ver o que acontecia. Os rapazes que ficavam rodeando a porta da igreja esperando os olhares rápidos das moças durante a missa, correram para acudir o Jurandir. O Jurandir nunca comia as coxinhas de D. Judith por causa da eterna dieta médica, mas estava sempre sentado à porta do bar para ouvir os “causos” que os companheiros contavam. A notícia espalhou-se rapidamente e logo chegou aos ouvidos do padre Arlindo, que inconformado, encerrou a missa e erguendo a batina saiu correndo. Porém, ao descer as escadas da entrada da igreja, pisou no talar e rolou as escadarias numa cena patética, onde as beatas – que estavam já aos fuxicos comentando o acontecido e especulando o poderia ter acontecido – correram para ajudar o pároco que não conseguia se levantar.
Os moleques da praça que nos finais de semana, por não ter aula, vagueavam com suas bicicletas ao redor da praça, correram na casa do seu Anatólio avisar D. Gerusa que o marido dela havia passado batido pelo bar do Derbal. Trêmula, D. Gerusa aceitou carona na garupa da bicicleta do Téozinho, filho do dentista da prefeitura. E foi ela, com avental e tudo mais, meio desajeitada na traseira da bicicleta, até a praça. Ao chegar na praça, meio zonza com o passeio de bicicleta, D. Gerusa avistou aquele pandemônio todo no largo. Crianças de colo chorando, o padre sentado num banco com uma trinca no tornozelo, por certo em virtude do tombo. As ciganas maldiziam que era um sinal, que o final do mundo estava chegando. Um Testemunha de Jeová que pregava na praça aos domingos gritava histéricamente que o Messias estava voltando, sua mulher que o acompanhava nas pregações, rasgara a blusa e bradava que ele era uma pecadora. As beatas, agora de joelhos no chão cálido de cimento, rezavam um rosário aos prantos e até uma baiana que vendia cocadas por ali, derrepente começou a girar e a receber um encosto de terreiro.
Duas quadras dali, sentado em baixo de uma árvore frondosa estava o S. Anatólio. Vagarosamente, D. Gerusa se aproximava do marido. “Eu não conheço mais esse homem”, pensava ela. “Anatólio”, falou docemente, “o que está acontecendo ?“ o marido olhou-a e nada respondeu. “Fale comigo, homem de Deus. Sou eu a Gerusinha, lembra-se de mim.” Suas mãos tremiam, sentia que suas pernas não aguentariam muito tempo. O marido permanecia impávido, olhando ao longe. Vez em quando olhava para a esposa. “trinta anos, e derrepente uma decepção dessas! Diga alguma coisa, eu não aguento mais. Você tem outra mulher! É isso. Responda para mim, eu não vou ficar brava!. Já sei, tem outra família. Eu já deveria saber. Quantos anos ela tem, quantos filhos tem com a sirigaita. Mas eu entendo, eu sei que no fundo você cansou-se de mim, oh meu Pai”. No alto da árvore, dois corvos negros olhavam aquela passagem insólita e grajearam. D. Gerusa observou os pássaros e benzeu-se com o sinal da cruz. “Só pode ser mau agouro, credo em cruz”.
Aos poucos, o mundaréu de gente aproximava-se do casal. O padre manquitolando e com escoriações múltiplas se achegou ao seu Anatólio e, segurando com a mão esquerda o crucifixo, apoiou a mão direita no ombro do dizimista. “Você tem algo a me contar? “ Mas nada, um rápido olhar de canto de olho e mais nada.
De repente, seu Anatólio levanta-se. O povo todo se afasta e o homem observa aquela pantomina improvisada. Caminha calmamente no sentido de sua casa. A essa altura, o repórter da emissora de rádio local encontrava-se no meio daquela canícula anotando e narrando os fatos que mudaram a rotineira vida da cidade. Com passos largos e espaçados, seu Anatólio retorna ao lar seguido de D. Gerusa. Uma procissão acompanha o casal distante cerca de três metros. Ao entrar em casa, ele olha uma última vez para aquela multidão e entra em casa fechando o portão. A maioria não notou, mas Anatólio tinha um sorriso no canto dos lábios....

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Sexta-Feira...

Sexta-feira....hoje é o dia.
Sexta é aquele dia que todo mundo (com algumas exceções, é claro) adora. Adora porque o sábado é amanhã a e amanhã muita gente não trabalha e tira o dia pra curtir a familia, lavar o carro, praticar esportes, ir as compras, enfim, um dia de diversão e que para os mais jovens, tem a noite mais espetacular dos próximos 150 anos, mesmo que essa noite se repita a todo sábado. O problema do sábado é que ele acaba e ai vem o domingo (alguns sábados só acabam na terça-feira, mas isso eu falo mais abaixo) e domingo é terrível, é o dia da desilusão, da ressaca, do desespero, de fazer tarefa, de não ter paciência pra nenhum programa de televisão....terrível e temível...
Estava pensando nos dias da semana, acredito que eles possuam alma....Sim, pois os dias da semana – cada um deles – possuem personalidade própria e influenciam na vida de cada um de nós.
A quarta-feira é um dia forte, marcante, um divisor de águas, ou de semana no caso. Às quartas-feiras, os restaurantes de São Paulo servem feijoada. O ano, no Brasil, praticamente começa em uma quarta-feira cinzenta, e é justamente nesse dia em que o povo brasileiro percebe que o carnaval acabou – alguns insistem em permanecer em carnaval até novembro mas sigamos o roteiro. É realmente um grande dia a quarta.
Assim, observemos que cada dia é um particular.
A segunda-feira, tem nome, sobrenome e até apelido, o dia da preguiça. Mas é uma injustiçada, se tem um dia que trabalha para permanecer vivo é a segunda-feira. Ë uma lutadora, segue firme até que a terça-feira venha, sem pestanejar, apesar da preguiça que lhe é peculiar.
Por falar em terça-feira, esse é um dia com muita presença. Muitos dizem que a semana realmente começa na terça-feira. É o dia em que ativamos nosso motor e damos impulso para mais uma semana de batalhas. Grande dia!
A quarta-feira já foi falada aqui e é realmente grandiosa, é "O" dia....
A quinta-feira, bem, a quinta é uma incognita, um problema. Talvez um caso de falta de caráter, ou insegurança. A quinta vive perseguida pela quarta e à sombra da sexta-feira. Ela não se decide se é ou não é, ninguém sabe ao certo o que representa uma quinta. Todo mundo sabe que começa no final da quarta-feira e termina no início da sexta-feira, e é só. Muita gente leva a quinta sem saber que dia é, comenta-se aqui e ali, às vezes escondidos, na hora do cafezinho, que seria uma quinta-feira, mas na verdade, o que todo mundo está esperando, é que a quinta acabe para que chegue logo a sexta-feira. Existe muita gente reinvidicando um tratamento mais respeitoso a quinta, e eu peço que mandem cartas em defesa desse dia que já andam pensando em retirar do calendário.
A sexta-feira, ou deveria dizer: Ah! sexta-feira!! Sim, esse é o dia mais badalado da semana. A semana toda se resume nesse dia. É o dia dos acontecimentos. Viaja-se nesse dia, as tragédias ocorrem nesse dia. O pessoal vai trabalhar disposto (exceto em Brasília) na sexta. A sexta tem hora pra começar mas nunca para acabar. Ela começa exatamente após o último minuto da quinta (que dia é esse mesmo?) e só vai terminar sabe Deus quando. Um amigo meu diz que a última sexta-feira dele terminou por volta das 16:18hs do sábado, um espetáculo de dia – e noite! Na sexta, não há reclamações no trabalho, e os serviços de reclamações até fecham nesse dia para não haver reclamações, e ninguém reclama. O melhor da sexta, é que no outro dia, é sábado (já bastante exaltado no início do texto).
O sábado é um dia tranquilo, para muitos ele ainda é a sexta-feira em carne e osso, ou horas e minutos. As tardes de sábado são tranquilas e ensolaradas, e se chove, não tem problema, ainda assim é sábado. Deus salve os ingleses!!!
Domingo, bem, primeiramente precisamos resolver se o domingo é fim de semana ou início de semana. Uma classe de alunos de pós graduação e mestrado da Universidade Nacional de Terenos/MS, está realizando intensa pesquisa sobre o tema. Se for início de semana, os jornais de sábado precisam repensar o encerramento, pois quando o âncora diz “boa noite” e a parceira diz, “e um bom final de semana”, está querendo dizer, ‘bom final, final-finalzinho de semana’ ! Eu sustento que o domingo é final de semana até começar o Fantástico ( no meu tempo era até acabar os Trapalhões, mas isso foi há três décadas) após isso, já é segunda-feira.... e ai, lá vamos nós outra vez....
Para não perder o embalo da semana, primeira semana desse espaço virtual aqui, e entrar embalado no sábado, abro uma garrafa de um especialmente delicioso " Insolente Sicilia 2003" vinho de altissimo padrão e que talvez eu nem tenha outra oportunidade de tomá-lo, mas um grande vinho, escuro como a noite, saboroso como a vida, perfeito para esse dia e pra fechar a semana. Como um grande vinho pede um acompanhamento a rígor, coloco pra tocar "Yardbird Suite"com os antológicos Miles e Bird. Miles Davis no trumpete, Charlie "Bird" Parker no sax alto, Bud Powell no piano, Tommy Potter no baixo e Max Roach na bateria. Gravado pelos Gênios em maio de 47..."Hey, Miles! I hear you've been looking for me..." teria dito Bird ao encontrar Davis...genial...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

A Morte

Hoje resolvi falar de uma assunto que ainda gera arrepios e calafrios em muita gente. Pois é, a dita cuja. Tem muita gente que não gosta nem que se pronuncie o nome dela, dizem que dá azar, assim deram-na muitos nomes: Derradeira hora; dessa pra melhor (ou pra pior dependendo do político); hora de abotoar o paletó; dormir quente e acordar gelado; única certeza dessa vida; falar com Deus; encontrar-se com Jesus (ainda com variáveis conforme o partido) entre tantas outras.
Mas o que é esse fato do qual não podemos escapar e que vez ou outra ronda nossa vida – prima irmã mais velha da distinta. Filósofos já escreveram ensaios e até obras inteiras sobres a fatídica. Uns descreveram-na como “ato único e sublime, talvez o mais soberbo na vida miserável da nobreza”, com essas palavras Satre encerra um pequeno discurso, feito em um café parisiense (obra não divulgada, claro) sobre o último respiro. Outros, a chamaram como “miserável encontro marcado para esses fantoches que são perversamente manipulados aqui nesse mundo sabe-se lá por quem.” Assim Wilde, em um noite de bebedeira, declarou sua ira com o derradeiro encontro e com quem quer que determine o mesmo. Existem ainda, aqueles que simplesmente zombam dela, que a tratam como uma velha conhecida, alguém que certamente já rondou por entre os vários dias de cada vida.
A cada geração que passa, o mito aumenta e parece que o inconformismo também. Talvez pelo avanço da ciência e da medicina, o homem de hoje não aceite que não possa derrotar a temida ou então reiniciar como se fosse um terminal de computador. Entretanto, há aqueles que não a temem e aceitam-na como mera consequência de uma vida, e eu me incluo nesses. Afinal de contas, a bandida sempre esteve entre nós.
Quem não levou um tombo do berço, ou então, levou algum instrumento metálico à tomada ou ainda, passou noites inteiras com febre alta, e a vigarista ali, sentada à beira da cama, amolando a velha foice e a sorrir para nós. A febre baixava, ou a viga caia a poucos centímetros de nossa cabeças. O caminhão que desvia-se no último instante, ou ainda aquela mordida de animal peçonhento que, por um curvar-se do corpo, errou o bote. E a ordinária a amolar a foice.
Certas pessoas convivem dia-a-dia com a perversa. Alguns até a convidam para um cafezinho, e a disgramada aceita. O fazem com o intuito de prolongar sua estada por aqui, mas é inevitável a chegada do fim, ele vem para todos. Mesmo para aqueles que fazem aniversário de três em três anos, como alguns artistas.
Passa ano, entra ano, e ela está ali, sentada no canto da sala, a foice impecavelmene afiada, como navalha.
Já tentaram até trocar a foice por modernas pistolas de raio laser, mas ela não quis, disse que seria muito simples e perderia a graça. E percebam senhores, que ela é ELA, uma mulher a levar-nos ao fundo, ao fim.
Mas eu não, eu não a temo.
Hã o nome dela...dizer, bem, é melhor não, pode dar azar, vai que ela ache que a estou chamando...

Para brindar à vida e ao bom humor, abro um “Barbera D’Asti” e coloco pra tocar “Light as a feather” com Chick Corea, piano elétrico, Joe Farrell, sax soprano, Stanley Clarke, contrabaixo, Airto Moreira, bateria, Flora Purim, voz e percussão....