quarta-feira, 25 de abril de 2007

Pra frente...sempre

Impressionante como algumas pessoas têm capacidade de ficarem presas ao passado e não aproveitar o que está passando diante de seus olhos.
Algumas, ao contrário, tem enorme disposição e força para baterem a poeira assentada pelo tombo e simplesmente olhar adiante, mirar um novo objetivo e seguir atrás de alcançá-lo.

Conheço algumas pessoas dos dois tipos, e não cabe aqui nenhum julgamento de princípios ou valores, até porque é complicado julgar atitudes quando se trata de foro íntimo. O que me impressiona é a diferente forma de enfrentar situações semelhantes por pessoas com as mesmas possibilidades de reação.
No documentário "An Inconvenient Truth" com o ex vice presidente norte americano Al Gore, ele abre uma palestra dizendo: "I'm Al Gore. I used to be the next president of United States of America..." (algo como, "Eu costumava ser o próximo presidente americano") e arranca aplausos da platéia.
Se tem alguém, na história dos últimos 10 anos, que foi enganado, ou, pra ser mais polido, que foi levado a sair de cena, injustamente, foi o ex candidato à presidência dos Estados Unidos. Não quero comentar o episódio, até porque já faz muito tempo e na eleição posterior, o atual presidente validou sua legitimidade com o voto popular, corretamente dessa vez. O que quero dizer é que, ao invés de ficar lamuriando a perda (ilegítima) do cargo de maior poder no mundo, e talvez a trajetória pretendida por uma vida toda, Al Gore resolveu mudar e seguir adiante. Não o conheço ou sequer conheço seu trabalho a fundo, porém sei do seu novo trajeto na política. Trajeto esse que provavelmente inviabiliza definitivamente qualquer pretensão de nova candidatura.
Com um filme enxuto e sem exagerar na pieguice ou dramaticidade, nos mostra que somos todos responsáveis pelas desastrosas ocorrências em nosso planeta. Degelo, aumento de temperatura nos oceanos, fenômenos "naturais" violentos cada dia mais rotineiros e etc.
Foi adiante, abraçou uma causa e está ai, lutando por ela.
É esse o exemplo de se erguer após um tombo. Não necessáriamente é necessário ficar lutando ingloriamente contra o mesmo adversário todo o tempo. Muitas vezes temos que aprender com o erro e a derrota anterior e na nova batalha ou desafio, usar a experiência. Isso não significa ficar lutando todo o tempo contra as mesmas coisas, mas sim, não deixar de lutar, seja pelo que for.
Poderia citar aqui diversos outros exemplos mas não quero trazer isso para o círculo pessoal e correr o risco de ofender alguém. Basta apenas dizer que entre meus amigos fiéis e meus parentes mais próximos, tenho exemplos de superações de incrível resistência. São todos meus heróis e Nortes, aos quais procuro olhar e me guiar sempre que alcanço a lucidez desejada.
Não posso porém, deixar de citar a Li nesse espaço. Muito antes de sermos um casal, eu já a admirava e respeitava sua força e seu vigor no trato com o dia-a-dia. Trabalho, estudo, amigos, problemas e soluções, sempre foram por ela tratados com uma simplicidade e uma força incríveis. A admiro por muitas coisas que no cotidiano eu posso, como favorecido que sou, absorver. Mas essa força de superar-se, de aprender e de perdoar, de observar e corrigir o rumo que ela tem me impressiona a cada dia. É uma pessoa especial e me sinto especial por estar tão próximo dela, especialmente nesses momentos em que temos vivido coisas tão únicas.
Olhar pra frente...essa é a chave.
Não podemos ficar carregando o fardo do passado. Aprendamos com nossos erros, mas não podemos nos auto-martirizar e abdicar da vida. Temos que ter a clareza que pessoas como a Li e o citado ex presidente têm, de olhar adiante sem ter a preocupação ou "desculpa" de carregar um fardo pesado demais.

Para momentos de reflexão como esse, abro um vinho que sempre me faz refletir. Um Pinto Noir. Misterioso e frágil, sem deixar de ser forte e simples...um caso a parte no mundo dos vinhos.
E pra tocar, coloco "Blue Monk" com Hank Jones e sua trupe. Ele no piano, Cannobal Adderley no sax, Wes Montgomery na guitarra, Milt Jackson no vibra, Tony Willians na bateria e Ron Carter (o professor) no contra-baixo...Muito bom.

terça-feira, 24 de abril de 2007

O Nosso

Tenho andado sumido desse pequeno mas prazeroso espaço que a web me proporciona.
Coisas do dia-a-dia, da correria da cidade grande e da nova paternidade (muito mais pelo lado psicológico que pelo lado prático).
Ontem, tomando café com um amigo e estávamos falando na importância do "nosso" na vida cotidiana.
Temos, muitas vezes, a estranha mania de desvalorizarmos o que é "nosso" ou então de valorizarmos mais o dos "outros" - diz-se que a grama do vizinho é sempre mais vistosa.
Acredito que essa é uma época difícil em que os povos a cada dia mais, estão em busca apenas do material e com isso passam a valorizar mais o que "outros" têm e não o que eles mesmos.
O "nosso" deverá sempre ser o melhor. Guardadas as proporções e razões de auto-crítica, onde podemos melhorar nossa conduta, devemos valorizar os nossos amigos, entes queridos, valores, princípios, história e estórias, criação e educação, infância etc. Não podemos simplesmente desprezar essas coisas, tão valiosas que são nas nossas vidas. Não podemos nos esquecer das conversas simples, sérias ou descontraídas com nossos pais. Os primeiros namorinhos, a primeira briga, a primeira e a última nota baixa na escola. Tão pouco devemos esquecer os conselhos de amigos que abrem mão de seu próprio tempo para sentar e nos ouvir e só então nos dizerem algo para nosso bem, mesmo que muitas vezes não queiramos ouvir nada, apenas dizer e dizer. Mas, são palavras importantes as que nos dizem, pois são para nosso bem.
Como jogar fora aqueles momentos tão raros e simples com "nossos" avós? Não podemos abrir mão disso por simples capricho e desejo de consumir algo que o cidadão da frente têm e nós não.
Por que? Pra que? Nada é mais nosso do que os momentos, creio aliás ser a única coisa realmente nossa. Então, não devíamos simplesmente achar que o cara com o carrão bacana e o apartamento mais vistoso que o nosso tenha uma vida mais simples e feliz, tão pouco mais fácil que a nossa, até porque não é a NOSSA vida.
Infelizmente o "nosso" tem perdido espaço para os "meus", "seus" etc.
Ainda tenho esperança em ter uma vida onde "nossos" momentos, em união e companhia das pessoas do "nosso" querido convívio. Espero que "nossos" filhos possam entender que isso é importante um dia.
Mas, enquanto escrevo isso, provavelmente algum batalhão das forças armadas do Sr.da Guerra esteja invadindo algum bairro ou cidade de um país que julga ser "DELE" e matando pessoas. Ceifando, tirando-lhes aquilo que era só "deles" e não DELE. Ou então, em SEU território, algum estudante desequilibrado e infernizado com a esquizofrênica incoerência e contradição dos atos com as palavras daquele governo, mata algumas dezenas de colegas e se mata sem deixar explicação...mas não há explicação...infelizmente.

Não abro nenhum vinho hoje, tão pouco coloco música alguma, não tem clima.

Paternidade.

Segunda-feira passada fiquei sabendo que serei pai novamente.
É uma grande emoção e um sentimento muito profundo e constante esse. Como todo mundo, sou um ser cheio de defeitos e algumas qualidades e ser pai tem sido uma experiência que acaba por exaltar as qualidades pois pretendemos sempre passar o melhor para nossos filhos.
Vem vindo ai uma nova vida, um novo ser, para o qual, assim como a Luiza, vou me esmerar em ser presente, em amar esse bebê e principalmente, fazer de tudo para que o projeto de transformá-lo em ser humano, de verdade, seja bem sucedido.
A alegria é imensa e a agitação é incrível. Mesmo parado, meditando ou refletindo, dá pra sentir uma nova vida entre nós. Posso sentir o pulsar dessa criança, antes mesmo de ter tocado-a.
A mamãe fresca tá que não se aguenta também e juntos temos curtido muito essa etapa.
Tenho um amigo que diz que "esses bichinhos já vêm com o pãozinho embaixo do braço", numa referência a preocupação que a maioria, se não todos, dos pais têm, que é alimentar suas crias.
Alimentar não só de pão, mas de amor, afago, carinho, segurança, responsabilidade, princípios fortes e dignos. A tarefa não é fácil mas é extremamente simples, bastando ter em mente que não somos donos das vidas de nossos filhos e que portanto eles vão ter que se dirigir nessa vida. Assim, acredito que cabe a mim apoiar, estruturar e fundamentar enquanto crianças para que quando adultos possam se guiar sozinhos, sempre sabendo que eu estarei aberto para ajudá-los.
Agradeço a Deus por ter essa oportunidade tão única que é a paternidade. Nós homens não nascemos preparados para sermos pais, ao contrário, somos filhos, maridos, tios etc. A paternidade é um aperfeiçoamento, uma benção que ganhamos e onde temos a chance de crescer espiritualmente e passamos a (re)valorizar princípios que tivemos quando crianças. Cada sorriso de minha filha me nutre de tal forma que percebo que meu principal projeto nessa vida é o de ser um pai honesto, justo e carinhoso com meus filhos. Empregos, dinheiro, bens, amigos, enfim, tudo o que planejamos, programamos e capitalizamos durante nossa vida é secundário, mas não sem importância, apenas é o segundo motivo. O primeiro será sempre esse amor incondicional que desenvolvemos por essas pequenas criaturas que sabem muito mais do que nós e que nos propiciam momentos que valem uma vida.
Os próximos 7 ou 8 meses serão de preparativos materiais e psicológicos para recebermos a mais nova obra prima da natureza.


Para esse momento, como em alguns outros de rara emoção, toco o Kind Of Blue todinho e abro um Brut para brindar a nova vida que em breve nos estará brindando com aquilo de mais belo que um bebê tem, a pureza e a completude da vida.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

JoJô

Hoje, 2 de abril ela faria aniversário. 27 aninhos.
Eu, que a vi chegar em casa recém nascida.O cabelinho espetado, avermelhado. A vi chorar brava e forte, provavelmente com fome, faminta que era desde sempre. Faminta que sempre foi pela vida. Pelas coisas boas e simples dessa vida. Tinha fome de amigos, de convívio com os que amava. Fome de viver! E como viveu bem essa menina.
Uma rápida lembrança e a imagem que me vem em mente é o de sua casa cheia. Amigos e amigas felizes, cantando, brincando, jogando, se divertindo enfim.
A simplicidade era sua marca. Um convite inesperado para sair e ela em 2 minutos estava pronta. Não se importava com grandes marcas ou aparências fúteis. O importante era ir e estar perto de quem amava.
Me lembro de nossa última conversa naquela fatídica tarde de setembro. Ele me mostrara o tênis novo que havia comprado por 1/3 do preço e comentou que tinha comprado um rosa para a Ná. Dei risada da maneira simples e bacana que ela me contou aquilo. Havíamos passado parte da tarde juntos, ela aguardava a liberação do plano de saúde para poder fazer a intervenção. Era apenas uma pedra no rim. Um "peso" que ela carregava havia alguns anos. Dores e intervenções ultrasonográficas e outras do tipo não foram o suficiente para tirá-la do sério ou arrancar seu humor. Naquela tarde caminhamos abraçados por uma galeria velha no centro de São Paulo aguardando a tal liberação. Caminhamos devagar observando as vitrines antigas e conversando sobre seu namorado. "Ele não tem tempo quente..." me dizia ela apaixonada. "Faz cada rolo, que vc nem imagina..." contou-me com um brilho no olhar.
Lembro-me de beijar seu rosto e despedir-me dizendo que mais tarde, depois do trabalho eu passaria ali para ver como tinha ido e para levar um jantarzinho pra elas (minha mãe e minha tia a acompanhavam). Ela disse que estava bem, pegou seu travesseiro, deu risada de uma transeunte engraçada que passou a frente do carro, me deu um beijo e saiu. Eu nunca mais falaria com ela outra vez.
Aqueles dias foram os mais insólitos de minha vida. Jamais imaginei sofrer um impacto tão forte e triste como perdê-la. Não me parecia natural ou certo. Pessoas nascem e se vão, eu sei, mas não daquela maneira. Uma fatalidade.
Mas como estou falando de Jojô, não há que ter espaço para tristeza. Tenho que celebrar o tempo que tive a honra de conviver com essa figura tão ímpar e bela.
Foram 26 anos de irmandade. Era minha amiga, minha prima e irmã. Demos muitas risadas juntos, tocamos violão, cantamos, fomos pra praia, viajamos juntos e compartilhamos de momentos sempre inesquecíveis.
Hoje continua sendo seu aniversário. Não mais posso abraçá-la ou telefonar e dizer "feliz aniversário linda". Mas posso e vou continuar desejando-lhe felicidade e paz, esteja ela aonde estiver, e certamente ela está em melhor lugar. Acredito que sua presença permanecerá por aqui pra sempre. Pessoas como a Jô não desaparecem, mesmo que seu corpo físico teime em sumir. Mas posso sentí-la por perto, com aquele jeitinho simples, meigo, decidido e lindo de ser.
Parabéns Jô. Muita paz e felicidade pra vc minha linda, esteja aonde estiver, que Deus lhe abençõe.

Abrou uma garrafa de Antonin Guyon Pinot Noir 2004, para degustar relembrando os ótimos momentos vividos com minha querida Jô. Coloco pra tocar o Kind Of Blue inteiro. Miles Davis no trumpete, Bill Evans no piano, Coltrane no sax tenor, Ardeley no Sax alto, Chambers no baixo e Billy Cobhan na bateria

Educação

Esse final de semana fui visitar minha pequena Luiza, meu tesouro e com quem tenho aprendido coisas incríveis nesses apenas 9 meses. A cada dia que passa ela tá mais esperta, linda e amorosa. Já manifesta seus anseios e com uma genial determinação, consegue o que quer...
Ao descer ao saguão do hotel para fechar a conta, enquanto aguardava a fatura um senhor ao meu lado solicitou o fechamento da sua conta e antes que a atendente pudesse dizer algo ele desferiu uma dose de veneno reclamando que tinha pago antecipadamente sua diária. "Eu nunca vi isso na minha vida...", disse o "cidadão". "Sou da Federal e conheço muita gente na empresa X e na empresa Y, gente de alto cargo e com poder de decisão..." continuou.
A recepcionista, com muito tato e educação, informou-lhe que é uma norma da rede de hotel para hóspedes que não têm reservas.
O briguento preferiu ignorar e disse que ia ligar pra fulano e pedir que nunca mais se hospedasse ninguém naquele hotel (que, apenas para esclarecer, me pareceu honesto e correto, além de me hospedar com respeito e coerência ao valor de sua diária).
Assinei minha fatura e fui saindo. Fiquei pensando o que leva alguém em pleno domingo de sol, saindo de uma viagem, que me parecia da lazer pelos trajes, estabelecido na vida (pelo menos foi o que ele fez questão de afirmar) fazer escândalo na recepção de um hotel. Ele resmungou algo como "estão achando que eu não ia pagar??"... Bem, não sei sobre as normas do hotel e já me aconteceu em outros lugares de ter que pagar uma diária adiantada, mas o raciocínio é simples. Se eu vou pagar e sei disso, tanto faz se na entrada ou na saída. Se me cobram na entrada eu não tenho porque me sentir ofendido pois em nenhum momento pensei em não pagar, certo? Pois parece que tem gente que não pensa assim e o fato de pedirem um simples pagamento de algo que se deve passa a ser um insulto...
Insulto é o que esse cidadão fez e outros tantos fazem ao querer mostrar poder, influência etc. Coitados, não sabem nada e acham que realmente alguém se importa se conhecem o presidente da república ou o papa. Importaria que fossem corretos e, se sentirem que devem reclamar, reclamem mas sem ofender ninguém.
Assim seguimos...

Para amenizar um pouco, coloco Chet Baker para tocar. Ele no trumpete, Zoot Sims no tenos, Bud Shnak no alto, Russ Freeman no piano, Joe Mondragon no baixo e Shelly Manne na batera tocam "You don't know what love is". Para brindar àqueles que ainda acreditam nas boas maneiras, um chianti italiano, justo, fino, educado.
Boa semana a todos...